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Cuidar, Amar e Comer: Taberna do Mundo

Sílvia Pereira é casada. É mãe. É enfermeira. É empreendedora. É cozinheira. É, acima de tudo, uma cuidadora. Se até há pouco o era na área da enfermagem, agora cuida dos outros através da comida. A educação para a saúde é uma das suas grandes paixões. Decidiu arriscar, pediu uma licença sem vencimento após quinze anos como enfermeira e abriu a Taberna do Mundo, um Health Center, Juice e Raw Food Bar localizado em Braga.

A história de Sílvia tem grandes raízes na infância. Foi a quinta filha que os pais sempre apelidaram de “diferente”. O pai dizia que era uma revolucionária: muito curiosa, queria para tudo uma explicação… lógica. Afirma-se como autodidata desde sempre: com cinco anos aprendeu a tricotar, aos dez já cozinhava. Duas paixões que despertaram cedo e a têm acompanhado ao longo de toda a vida.

Sílvia é, aliás, uma mulher de paixões: culinária, saúde, tricô, artesanato, escrita. Talvez por isso, quando o bichinho da mudança de vida lhe começou a falar cada vez mais alto, não lhe tenha dado logo ouvidos: gostava de tanta coisa que não sabia bem o que havia de fazer. Nessa altura, outra coisa acontece: a adversidade bate-lhe à porta em forma de doença crónica.

“Tudo começou há uns anos, quando fui diagnosticada com a doença de Crohn. Receber um diagnóstico de uma doença para a vida é uma coisa que nos afeta imenso. E, sendo eu enfermeira, só conseguia pensar nas complicações que ia ter. Quando se é leigo na matéria, desvalorizamos mais facilmente. Eu sabia que não era bem assim…”, diz, rindo.

Começou a fazer os tratamentos habituais para quem padece da doença, mas continuava a sentir muito mal-estar. Entretanto engravida da filha mais nova e vê-se obrigada a parar com o tratamento. Os sintomas e dificuldades aumentavam. A filha nasce e cedo descobrem que é intolerante à proteína do leite de vaca. Como amamentava, Sílvia teve que restringir todos os alimentos que contivessem a proteína.

“Faz. E quando fizeres, continua… A vida ainda só agora começou!”

“Comecei a investigar e a tentar perceber que alimentos deveria evitar. Tive uma total surpresa: na indústria alimentar quase tudo tem proteína do leite de vaca, até o fiambre! E aí pus-me a pensar: «isto não será mais negócio do que outra coisa?»”, questiona.

Começou então a mudança de regime alimentar. Nova surpresa: melhorou imenso. “Imenso, imenso, de uma forma inacreditável”, explica. Começou a procurar outras ajudas em medicinas alternativas, como a homeopatia. Sendo da área da saúde e autodidata por natureza, começou a estudar e explorar outros recursos por conta própria, de modo a poder aplicar os conhecimentos lá em casa também. Não queria que o conhecimento se extinguisse em si. Foi precisamente a primeira pessoa com quem contactou na área da homeopatia que lhe explicou os benefícios da comida crudívora, ou raw food.

Durante a sua busca por uma melhor saúde, Sílvia fez formação em reiki, toque terapêutico, coaching, mindfulness, terapia cognitiva e comportamental e programação neurolinguística. Começou a perceber que várias coisas que conotava como esotéricas de esotéricas não tinham nada e podiam ser explicadas à luz da ciência.
“Para mim tudo tem de ter uma explicação. Eu não me contentava com frases feitas, tinha que arranjar uma base para o que era dito. E agora consigo explicar algumas coisas com a neurociência e a programação neurolinguística, por exemplo. Não descansava enquanto não arranjasse explicações lógicas”, sublinha.

Quando uma amiga lhe lançou a ideia de abrir a Taberna do Mundo, e depois de ter visto o bem que a mudança – de alimentação e de vida! – lhe tinha feito, a si e à família, Sílvia sentiu que tudo encaixava na perfeição. “Era mesmo aquilo!”. Podia continuar na área da educação para a saúde e conciliá-la com o gosto pela culinária.

“Aqui na Taberna consigo, além de uma boa refeição – uma alternativa saudável a tantas outras que existem por aqui pela cidade – dar também às pessoas umas luzes em termos de educação para a saúde. Plantar as sementinhas, como costumo dizer, para que mais tarde elas possam germinar… Ou não, isso já compete às pessoas e não a mim. O semeador apenas semeia, o solo é que tem de ser fértil”, diz, descontraidamente.

Pequeno-almoço, lanche, almoço, jantar, pode fazer qualquer uma destas refeições na Taberna do Mundo. Sílvia prefere os alimentos sazonais e locais e explica-
-nos que vários estudos indicam que estas escolhas estão relacionadas com a nossa genética, associada ao que consumiam os nossos antepassados. A partir daqui, Sílvia faz a sua própria interpretação da dieta mediterrânica, só usando ingredientes frescos e de origem vegetal, “misturados com uma grande dose de amor e carinho” e nunca cozinhados acima dos 42 graus.

Mas, como explicou a enfermeira, não são apenas refeições que pode experienciar na Taberna do Mundo.

“Chamo-lhe um health center porque, ao mesmo tempo que comem uma refeição, as pessoas também podem obter outro tipo de informações. Presencialmente, porque muitas vezes estou aqui com elas a conversar, mas também pelo calendário de formação que vou lançando mensalmente com diversos temas. Alguns são da minha autoria, que eu própria vou explorando, outros são de convidados que vêm cá. O objetivo é que as pessoas possam ter uma oferta maior e sair daqui mais informadas. Um dos meus critérios é que a informação seja fidedigna e bem passada por profissionais credenciados”, diz.

Os workshops, sessões de formação e aconselhamento, bem como cursos e programas de cura são frequentes. Mesmo com tanta informação – que adquire e depois faz questão de transmitir – Sílvia afirma que ainda tem muito para aprender. É licenciada em Enfermagem, pós-graduada em Sociologia da Saúde e doutoranda em Psicossociologia da Comunicação e é com manifesta humildade que se diz “ignorante”.

“Uma das minhas reflexões em relação à vida: estou cá para aprender e serei uma ignorante a vida inteira. Há tanto a saber que isto nunca mais acaba! Uma das coisas que perdi durante este processo foi aquela arrogância de jovem que sabe tudo. Nós não sabemos nada, somos um grão de areia no deserto”, sorri.

A doença – e a saúde – mudaram-lhe a forma de pensar a vida de forma irreversível. Juntou na Taberna a interdisciplinaridade que acumulou ao longo de vários anos e muitos estudos, foi observando as pessoas à sua volta e hoje diz que o seu objetivo é dotá-las de uma maior consciência que passa, necessariamente, por uma maior informação.

“Não fazia sentido guardar este conhecimento para mim. É inato. Assumo-me como uma cuidadora em tudo o que faço. Se me fez tão bem, porque não haveria de tentar ajudar outras pessoas? Se calhar foi isso mesmo que me levou à Enfermagem, porque a base da profissão é essencialmente o cuidar. Mas cuidar com consciência, com informação!”, sublinha.

Sobre o passo definitivo para a mudança, assume que foi necessária uma grande dose de coragem. Família e amigos encorajaram-na, mas ainda lidou com várias exclamações de espanto e incredulidade. Com a lufa-lufa dos primeiros tempos de abertura do espaço, nem teve muito tempo para pensar. Só agora, quando olha para trás, se pergunta: “Meu Deus, eu fiz mesmo isto?”.

“Somos capazes de tudo, só temos de querer e ter a resiliência necessária. Não podemos desistir. Acho que de todas as experiências que já tive na vida, para além da maternidade, esta é a mais significativa e que me fez crescer muito, muito! Acho que quando decidimos mudar de vida, principalmente para algo que nos faça verdadeiramente sentido, é pela procura de um preenchimento da alma, uma necessidade de não nos contentarmos ou conformarmos com aquilo que temos”, explica.

Sílvia diz que apenas procurou a felicidade e que, independentemente de a Taberna dar certo ou errado – “seja lá o que for que isso significa” – já valeu a pena. Diz-nos que é feliz e que só quer ajudar os outros a serem felizes. Uns meses antes de dar início ao projeto escreveu um poema, ainda longe de imaginar o que estava para vir. É com a conclusão daquelas linhas que nos deixa, dizendo que retratam a sua vida atual na perfeição. “Faz. E quando fizeres, continua… A vida ainda só agora começou!”.

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