Conto

Capítulo III: A sorte grande parece um conto de fadas

Tão bonito que aquele banco estava, coberto de um pó de sol e de uma chuva de pétalas brancas. O sujeito continuava de lápis na mão a fazer traços misteriosos no seu caderno e, Camila, desconcentrada das suas coisas habituais, ia espreitando por entre os buraquinhos do humano que os separava, o que no momento lhe era o mais especial. Passada uma hora, anunciam a chegada do comboio. Camila levantou-se e, num ato incontrolado, rasga um sorriso gordo, quase infantil, que lhe mostrava os dentes pequeninos e que lhe fazia tremer as bochechas, repleto de coisas bonitas para o rapaz que lhe entregou o significado da vida. Ele devolveu-lhe essa simpatia, mas sem passar muita confiança. Mas alguém me explica o porquê de os rapazes bonitos assumirem uma mania de lançar uma simpatia esquisita?! Calma, ainda só sabemos que és bonito, senhor Romeu.

Foram ambos na mesma carruagem, mas de costas voltadas. Camila, com aquele ser sempre na cabeça, mas mais no coração, tentou arranjar uma forma de se concentrar, mas parecia impraticável. Na chegada a Braga, Camila procurava disfarçar aquele desassossego constante que a desajeitava, e olhava para todo o lado na esperança de o voltar a ver, mas nada. Nada mais. Parece que o moço se tinha evaporado. “Camila, por favor, não sonhes tanto. Sabes que é tudo mágico nas imensas livrarias, onde compras aqueles romances com histórias cheia de sabor a nutella, que tanto aprecias, mas não passa disso. Livros bonitos não contam histórias reais.”. Camila, irritada por o seu bichinho interior estar sempre a pronunciar-se, e num explodir de emoções, grita: “Cala-te! Já não aguento contigo! Deixa-me viver este arco íris do amor! Não quero a tua opinião!”. Então diz-se lá coisas infelizes a pessoas apaixonadas?! Voz insolente e sem um pingo de noção.

Meio mundo ficou a olhar para Camila. Pois, está claro. Mas, olhem só, ah?! Aquela pequerrucha com idade de mulher, sempre amorosa, a fazer-se sobressair. Nós cá percebemos, mas as pessoas ficaram a pensar que era estrambótica. Ficou sem jeito, rebentando as suas faces rosadas, já não precisava de blush por uma semana. As viagens iam-se repetindo e, Camila começou a apontar na cabeça os dias em que o via. Todas as terças e sextas-feiras, lá estava ele. Talvez até fizesse aquela viagem a semana toda, mas Camila só o via nesses dias da semana.

Ao longo do tempo, e já iam quase três meses daqueles encontros e desencontros, Camila começou a sentir uma ligação injustificável àquele ser que não conhecia de lado algum, mas que todas as terças e sextas, estava ali, a apanhar o comboio para o Porto. Quase que já se podia intitular – “O comboio do amor!” Ou – “Aqui só entra amor!” – Mais sugestões? Xiiii, somos todos tão pirosos no que toca ao amor. E, ainda bem, de mais gente pirosa precisa o mundo. Cabemos todos! Eles eram tão modo panda sem se darem por isso. Quando se cruzavam (mesmo sendo por ínfimos segundos, importa lá o tempo aqui para alguma justificação) pareciam dois adolescentes. Olhavam-se com inibição, delineavam um sorriso roliço de compatibilidade e escondiam a agitação que sentiam, desviando o olhar muito velozmente. Haverá alguém que não admire esta inquietude?! Sempre que Camila o olhava, parecia que estavam sozinhos no mundo, mas onde tudo acontecia. Não era da cabeça dela, vinha do coração. Percebes, bichinho interior?! É tudo demasiado, mas sem demasias.

Numa manhã de sexta feira, tudo lhe aconteceu. Adormeceu, deixou entornar o café, não tinha água em casa, dobrara a perna com mais força e, pronto, as meias estavam estragadas, vestira o casaco com tanta pressa que um dos botões rolara pela carpete. Oh, my God! O seu aspeto traduzia integralmente o “fui atropelada por um camião”, mas eu acrescentaria, “e não dei por isso”. Como amiga dela, lhe diria: “Se sais de casa nesses preparos, deixamos de ser amigas”. Mas a corajosa lá foi. Uhuh! Sempre determinada no que respeita ao seu todo. Saiu a bater com as portas todas que lhe cruzavam. A de casa, a do elevador, a da rua, a do carro. Com tanta pressão, foi parecendo que os ecos daquela força se haviam estendido até à estação.

Ainda assim, não se atrasou para apanhar o comboio, mas já no último minuto, tropeça dentro da carruagem na sua entrada incrível de “mulher a todo o gás” que irrompe o arrancar do comboio. E, apesar de estar literalmente num dos seus dias negros, escuta-se uma voz quente e muito sociável, mas Camila só lhe vê os pés porque caiu e está vermelha de vergonha pela situação e só deseja que mais nada naquele dia seja tão mau. E, eis que surge: “A menina está bem?!”. O dia deixou de ser um pesadelo. Quando finalmente ganha coragem para levantar o rosto do chão, alguém lhe estende a mão para a socorrer, mas Camila tropeça novamente. E, quase incapaz de articular um som que fosse, esbarra na visão mais sublime que alguma vez vira. Nunca tinha sido por amor. Era ele. Sim, sim, sim, era ele.

“Esta sou eu a entrar todos os dias no comboio pela manhã”, expressou Camila, boquiaberta (fecha a boca Camila!), a tentar apaziguar aquele momento surreal na sua manhã dramática e a dar um toque de desconcentração. Ambos sorriram e, numa posição de afastamento, seguiram até encontrar um lugar desocupado. Camila tinha acabado de o ver, mas não conseguia evitar a sua vontade de querer voltar a preencher-se daquela visão. Porque vinha ele em todos os pensamentos de Camila? Esta será a pergunta retórica mais desnecessária do contexto. “Tenho que intervir!” – exclamou a sua voz interior. Agora não! Já findei mais um capítulo, falas no próximo. Coisinha mais aborrecida! (a próxima edição continua a acrescentar confettis de amor a esta história)  

Juliana Gomes, escritora
E-mail: escritorajulianagomes@gmail.com
Instagram: juli_ana_juli

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