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Em busca de paz e liberdade: a história dos Shlash

Hasan Shlash, de 32 anos, e Reman Shlash, de 26, são casados e têm três filhos: Ahmad, com 9 anos, Yazan, de 6, e Ibrahim, com 18 meses. Chegaram a Portugal a 30 de novembro de 2017. “Um ano e três meses”, diz Hasan com um sorriso enorme. A conta não está bem feita, mas o entusiasmo com que é dita supera em muito o lapso. 

A família Shlash é oriunda de Aleppo, na Síria. Durante a guerra fugiram para uma aldeia vizinha. Num português percetível, Hasan explica o que os fez tomar a decisão. 

“Havia muitos problemas. Estive dois anos sem trabalhar, não havia dinheiro para nada. Comecei por não ter dinheiro para a gasolina, foi-se o trabalho, deixei de ter dinheiro para comida ou medicamentos. E começamos a ver pessoas a serem decapitadas todos os dias. Era impossível viver lá”, diz, ilustrando o que diz com o gesto de quem passa a mão no pescoço. Hasan não gosta de recordar esses momentos e sacode a cabeça como quem afasta os pensamentos.

Ficaram na aldeia por seis meses e decidiram voltar a Aleppo em busca de melhores condições. Na periferia, com ou sem dinheiro, era quase impossível ter acesso ao essencial. Os bombardeamentos constantes – que lhes mataram vizinhos e conhecidos – fizeram-nos mudar de ideias rapidamente. Com os dois filhos mais velhos nos braços, meteram pés ao caminho rumo à Turquia, onde chegaram em dezembro de 2013. Tiveram que pagar o que não tinham a “bandidos” para os orientarem por todo o tipo de terrenos. Chegaram a Istambul de forma ilegal, iludindo as fronteiras.

Viveram na Turquia durante quatro anos. Hasan diz que as pessoas eram boas com eles, nunca tiveram problemas. Não teve grandes dificuldades em arranjar trabalho: foi taxista, entalhador, operário da construção civil, marceneiro e ainda fez uns biscates em publicidade. Reman engravidou entretanto de Ibrahim, agora com dezoito meses. Tudo estava bem, excetuando o mais importante: o filho mais velho, Ahmad, tem uma deficiência profunda e precisava de acompanhamento médico constante. Uma doença ou surto em bebé – os Shlash não conseguem explicar bem – afectou-lhe o sistema nervoso central e deixou-lhe sequelas permanentes. Só começou a andar aos cinco anos e quando chegou a Portugal não dizia uma palavra. O estatuto que a família obteve na Turquia – apenas de proteção temporária – fazia com que Ahmad não pudesse frequentar uma escola para crianças com necessidades especiais. Acompanhamento médico? Apenas o essencial, o mesmo dado a qualquer outra criança saudável. Os Shlash decidiram que tinham de lutar novamente por um futuro melhor de Ahmad. Informaram-se junto do ACNUR, concorreram a um programa das Nações Unidas e vieram para Portugal. Foram acolhidos pelo Colégio Luso Internacional de Braga (CLIB).

No dia em que nos encontramos, é um Hasan sorridente e vestido a preceito que nos cumprimenta. Sorri porque já nos conhece, já contamos parte da história da família há um ano. O português evoluiu muito, conseguimos falar com a família e entender a maior parte do que nos é dito, apenas com recurso ocasional ao tradutor do telemóvel. Desta vez estranhamos um pedido da família, sobretudo de Reman: não querem tirar fotografias. Pouco tempo depois, Hasan explica que estão bastante assustados com o ataque recente na Nova Zelândia, um país em que nada o fazia prever.

“Começamos a recear pelas nossas vidas depois do ataque. O atacante falou muito mal dos muçulmanos… Mas nem todos os muçulmanos são extremistas. Extremismo e terrorismo não conhecem religião. Extremismo e terrorismo são doenças da mente”, diz Hasan, com convicção. Explica-nos que em Portugal nunca sentiram preconceito – Reman usa hijab –, as pessoas limitam-se a olhar por uns segundos, mas seguem tranquilamente o seu caminho. Noutros países, como a Alemanha ou a França, a situação já é diferente. O hijab é olhado de lado. “Quem tiver hijab não tem trabalho sequer”, explica Reman em voz sumida. Agora o problema dos Shlash é outro: receiam que lhes aconteça algo de semelhante ao que aconteceu às vítimas da Nova Zelândia, que sejam atacados sem motivo nenhum. Reman, que já é tímida, tem ficado cada vez mais por casa.

Havia muitos problemas. Estive dois anos sem trabalhar, não havia dinheiro para nada. Comecei por não ter dinheiro para a gasolina, foi-se o trabalho, deixei de ter dinheiro para comida ou medicamentos. E começamos a ver pessoas a serem decapitadas todos os dias. Era impossível viver lá.

“Fiquei assustado e perplexo com o ataque. E saber que o terrorista fez aquilo e filmou tudo… No fim de contas, somos todos seres humanos, não dá para perceber! Este é um problema do eterno conflito mundial, entre direita e esquerda, desde os tempos antigos até à era atual”, reflete Hasan.

Apesar do susto, a família está bem. “Happy, felish”, diz Hasan, esboçando um grande sorriso. O pai já tem trabalho. Não está a tempo inteiro numa empresa, vai gerindo os projetos que lhe vão chegando à mão. Ahmad tem muitas consultas no Hospital de Braga e é sempre acompanhado pelo pai, que domina melhor a língua. Aliás, é Hasan que trata de quase todos os assuntos da família, até das compras para a casa. Prefere, por isso, gerir o seu próprio tempo, garantindo assim o acompanhamento a todos os filhos. É um pai extremoso que empurra o carrinho de bebé, assoa narizes e muda fraldas. Ahmad já fala. Ri. Brinca. E faz birras, “luta” com o irmão do meio. E abraça o bebé, dá cambalhotas para o fazer rir. Já Yazan, o filho do meio, fala muito bem português e bastante inglês, fruto das aulas no CLIB.

Os irmãos frequentam o estabelecimento de ensino de forma gratuita. Ibrahim ainda não anda, mas parece ser apenas preguiça. “E por estar muito gorducho”, ri Hasan. Reman também está contente, mas morre de saudades da família. Os pais estão na Turquia e a única forma de contacto é o telemóvel e a internet. Os Shlash não podem visitar os pais de Reman porque a Turquia não os deixa entrar no país: com receio de que voltem a ficar lá de forma ilegal, não lhes emitem um visto. Os pais de Reman não conseguem vir a Portugal porque a Turquia, não lhes concedendo o estatuto de refugiados, como já foi acima mencionado, não lhes permite ter passaporte. Os pais de Reman estão por esta altura a tentar obter “papeis” junto da ONU. 

Mas há boas notícias! O irmão de Hasan concorreu a outro programa Europeu, que prevê a recolocação de refugiados em países que já tenham acolhido os seus familiares, e vem a caminho de Braga. Chega no próximo mês e o calendário da família Shlash já tem funcionado de acordo com a data, não conseguem parar de contar os dias. Hasan elogia o irmão, que é mecânico, e o sobrinho, que é chapeiro. Espera que possam vir a abrir um pequeno negócio cá. Os olhos brilham mais que o sorriso quando nos diz isto.

Começamos a recear pelas nossas vidas depois do ataque. O atacante falou muito mal dos muçulmanos… Mas nem todos os muçulmanos são extremistas. Extremismo e terrorismo não conhecem religião. Extremismo e terrorismo são doenças da mente.

Entretanto Reman vai passando o tempo em casa com os filhos. Gosta de fazer tricô nos tempos livres. Se tivesse um emprego, gostava de trabalhar com “maquilhagem e penteados”. Hasan diz que tem muito jeito. Os dois riem-se e o marido traduz a brincadeira da esposa: “estão a chegar mais mulheres sírias, talvez possa montar um cabeleireiro em casa”. A jovem mãe também tem apresentado algumas dores de costas, pelo que os Shlash não têm passeado muito. Hasan apressa-se a dizer que a oração também já é exercício suficiente. Exercício? Hasan explica e exemplifica, pacientemente. Os sírios – os muçulmanos, aliás – rezam cinco vezes durante o dia. O pai levanta-se e mostra-nos: ora de pé, ora endireita as costas, ora se curva, ora a cabeça vai quase até aos pés, ora as mãos vão ao alto. “Rezar já é um belo desporto!”, brinca. O tempo de oração é, sem exceção, levado a sério por cinco vezes ao dia. Há horas concretas para o fazerem, mas se estiverem na rua – no CLIB pedem emprestada uma sala para onde se retiram – adiam um pouco o momento. A par da oração existe a ablução, onde lavam várias partes do corpo, o que também os obriga a grandes movimentos. “Não há micróbio que resista! Independentemente da religião do Islão, a oração traz benefícios a nível de saúde e limpeza”, atira o pai, com uma gargalhada.

Hasan gosta muito de ler e de ver televisão. Os meninos também. Enquanto fala connosco mostra-nos orgulhoso as fotografias no telemóvel com os seus trabalhos feitos na Turquia, em construção de interiores. Diz-nos que sabe fazer de tudo numa casa, excetuando trabalhos com pladur. “Mas aprendo depressa”, diz-nos de imediato. Na Síria, Hasan trabalhou durante muito tempo na farmácia do pai de Reman a negociar medicamentos. Perguntamos como aprendeu a trabalhar com o mármore, a madeira, o ferro e o vidro que aparecem nas fotografias. “Eu? Eu tenho uma boa cabeça”, ri.

O meu maior sonho…  É o meu filho mais velho ter saúde! Não quero nada da vida excepto ver Ahmad bem. Não quero palácios, uma grande casa ou ser muito rico. Só quero que os meus filhos e Reman tenham saúde!

A família está completamente adaptada a Portugal e às nossas rotinas. Continuam a preferir comida síria ou turca e não comem carne de porco, mas elogiam-nos o peixe, a sopa e as sobremesas. “Feitas muito deliciosas”, suspira Hasan. Os meninos também estão muito felizes e nem querem ouvir falar de voltar para a Síria. Neste dia Yazan está muito entusiasmado a pedir ao pai para comprar uma prenda de aniversário para uma das amiguinhas portuguesas. Hasan também afasta o cenário de um regresso à terra natal, pelo menos de forma permanente. 

“Se estivesse tudo bem, se as coisas melhorassem muito… O problema é que as coisas nunca mais vão ficar bem, bem. Não como eram dantes. Voltar só de visita, para ver família e visitar o túmulo do meu pai”, diz.

O jovem pai sonha um dia comprar uma pequena casa para a família. Nada de especial, mas algo que seja efetivamente da família e comprado com o seu dinheiro. Para já recebem também a Bolsa de Apoio aos Refugiados, que termina em novembro de 2019. Perguntamos à família se não quer mais filhos. Hasan gostava de ter uma menina, mas para já está fora de questão. “É muita responsabilidade e despesa, não é possível”, diz, com convicção. Que sonhos, então, para esta família de cinco?

“O meu maior sonho…  É o meu filho mais velho ter saúde! Não quero nada da vida excepto ver Ahmad bem. Não quero palácios, uma grande casa ou ser muito rico. Só quero que os meus filhos e Reman tenham saúde”, diz. Os olhos voltam a brilhar.

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