Conto

Capítulo IV: O amor não é uma fábula infantil 

Passou um mês sem o ver e, à medida que o tempo ia passando, os pormenores iam desparecendo calmamente da sua memória, já não eram tão intactos. A ausência dos dias que se seguiram estava a dificultar esse reconhecimento de dias intensos. A exatidão do rosto dele estava a tornar-se uma marca de água e aquela incerteza era uma certeza, Camila não sabia se o voltaria a reencontrar. Mesmo quando todos os olhares se cruzavam e Camila sentia que só o via a ele. 

Todos os dias da semana Camila fazia aquela viagem – Braga-Porto / Porto-Braga –; ida e volta, sempre à mesma hora. Tentava viajar na mesma carruagem e no mesmo lugar com o intuito de o destino os poder juntar novamente. Alguns rostos já lhe eram familiares e iam parar mais ou menos aos mesmos lugares… Porque não aquele ser um dia também voltar? Desde aquele acidente rodeado por uma chuva de cores que ela se transformara.

Camila, esgotada de ansiar por quem não chega, preparava-se para sair em Braga. Vestiu o casaco, pegou na mala e na sua direção começou a aproximar-se o homem de todo o seu universo. Camila fez-se em soluços e tremeu. O seu coração bateu tão rápido que quase a deixou sem respiração. O relógio parou, sim, mas não foi só o relógio. Foi tudo o que tinha vida, como se o mundo deles fosse um verdadeiro filme. Ou melhor. Ele rasgou-lhe um sorriso incrível, de quem não é só bonito por fora (afinal este “Romeu”começava a destapar-se). Camila respondeu-lhe da mesma forma. E, sem ter tempo de reagir ao que da boca lhe saía sem permissão, disse: “Olá!”. Ele não respondeu no imediato, mas fechou os olhos quase como se eles tivessem ficado pensativos e se demorassem assim. Deu uns passos para seguir, mas fez uma breve pausa. Camila viu-lhe a boca a querer mover-se, a torcer-se, quase independente dessa vontade e ele acabou por acrescentar, num sopro, a medo: “Olá. Já agora, sou o Gonçalo”. 

Querido Gonçalo, deixa-me dizer-te, introduziste a palavra amor na vida de Camila. Nada antes tinha acontecido de forma tão penetrante e Camila sempre considerou que tudo a acontecer “assim” seria demasiado cliché para ser possível. Foi como se a vida dela começasse a partir daquele preciso instante. “Tu também consegues exagerar nas frases bonitas!”, disse a voz interior de Camila. Acordou assim este som estranho que nos invade de vez em quando a leitura. Bem… 

Camila apressou-se na saída, alisou a saia, pegou na mala sem deixar de sorrir (sempre com o sorriso congelado; até quando não sorria conseguia sorrir), saiu do comboio e agarrou ao de leve a sua direção. E, quando já nada prometia ser melhor, Gonçalo dirigiu-lhe um gesto de adeus. Com as bochechas cor-de-rosa, Camila respondeu com mais um sorriso (mesmo ele não tendo desaparecido desde então) e seguiu. Mais feliz agora. Chegando ao carro, Camila fez uma dança esquisita de felicidade. Dançou com os braços, pernas, dedos das mãos e dos pés, pulou, movimentou–se toda como se fosse de plasticina. Estava completamente louca de contentamento. De repente, alguém: “Precisa de alguma coisa? A menina sente-se bem?”. Mas será que já ninguém pode ser feliz?! Nesse momento, Camila decidiu que, quando o voltasse a ver, não iria esbanjar mais o tempo. Seguiram-se algumas tentativas sem sucesso. 

Num regresso a casa e passados alguns dias desde aquele “encontro”, eles estavam ali, novamente, sentados. Mas, dessa vez, de frente um para o outro. Foi uma mera casualidade, para quem acredita nelas, mas só havia um único assento livre e ele era o único que se encontrava de pé. Camila não tinha reparado que ele estava presente, era quarta-feira e nada previa aquilo. Na sua frente, sentou-se uma pessoa. Como tantas vezes, as pessoas sentam-se e saem, entram e levantam-se e saem, que Camila, sendo aquilo rotineiro, mal levantava o rosto para as olhar. Mas, mal ela levantou a cabeça, o homem dos sonhos da vida real estava diante de si. Uma visão com um retrato peculiar e cheio de arestas definidas. Ela bloqueou de boca semiaberta para ele. Não era possível! Ela ficou sem reação e, baixando o rosto para o seu caderno às bolinhas pretas, largou um olhar querido de quem já não consegue esconder a sua transparência.

Camila viajava de perna cruzada e quase que dava para tocar no joelho de Gonçalo. Tão simples, mas romântico. Aquele homem era extremamente bonito aos seus olhos e a concentração de Camila começou a ser um problema. Quem diria que a Camila das palavras e da concentração estava a ser a Camila da transformação mais metafísica de todas. Tentava disfarçar o olhar, mas não era possível, era como se um íman estivesse a levar toda a sua atenção para aquele mundo. Olhava o vidro que funcionava como reflexo da imagem dele e a paisagem de toda a viagem passou a ser o bonito Gonçalo. Em cada apeadeiro entravam e saíam pessoas e eles ali, já sem pessoas sentadas naquele lugar onde só cabem quatro pessoas, desprendidos e fluídos. 

Durante a viagem trocaram sorrisos e olhares bonitos de alguma coisa estar a acontecer, ela ia escrevendo e ele rabiscando o seu caderno sem dar a hipótese de se perceber o que estava a esboçar. Quando a viagem se deu por terminada, Camila descruzou a perna, e Gonçalo deixou que ela se levantasse primeiro (extremamente cavalheiro). Ficaram de frente um para o outro, perplexos e tão próximos que quase dava para sentir a respiração de cada um. Olharam-se fixamente (estou para morrer) e ele entregou-lhe um papel. Não disseram nada um ao outro. (a próxima edição continuará a acrescentar confettis de amor a esta história).

Juliana Gomes, escritora
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