Vidas

Bernardo Reis

É reconhecido pelo exemplar trabalho que tem desenvolvido enquanto Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Braga, mas nem todos conhecem o seu riquíssimo curriculum e o seu invejável percurso de vida como Homem e profissional. Ser humano multifacetado, tinha o sonho de ser médico, mas acabou por licenciar-se em Geologia, área pela qual se apaixonou, sendo ainda hoje reconhecido como um dos maiores especialistas em diamantes do mundo.

Com um percurso académico exemplar, participou das grandes lutas e movimentos estudantis travados na sua época e conviveu com algumas das figuras mais marcantes da história recente. Cidadão do mundo, viveu em Angola, realizou missões no Congo e na Guiné Conacri, trabalhou no Brasil e na Venezuela, quis saber mais e mais, e fez especializações em Cambridge, na Inglaterra, e em Dublin, África do Sul. Em todos os cargos que desempenhou, quer no terreno, quer na gestão e direção, e por todos os lugares por onde passou, deixou a sua marca humanista. No final, foi precisamente o humanismo que permaneceu e, marido, pai de dois filhos e avô de três netos, optou pela família, acabando por fixar-se em Braga desde a sua aposentação, em 2003, desde então o rosto da Misericórdia de Braga, onde deixa uma marca indelével de trabalho, honradez e obra realizada.

Bernardo Reis nasceu em Pico de Regalados, no concelho de Vila Verde, em 14 de abril de 1934, filho de uma das famílias mais ilustres da terra. Fez o seu percurso académico até ao, então, sétimo ano no Liceu Sá de Miranda, onde se manteve sempre ligado, em simultâneo, ao Centro Académico de Braga (CAB), com forte influência jesuíta, e à Juventude Escolar Católica, tendo sido presidente da Ação Católica do Liceu Sá de Miranda e desempenhado funções na Direção Diocesana da Juventude Escolar Católica.

“Creio que a minha vocação humanista vem de então, altura em que convivi bastante com grandes jesuítas, como o padre Lúcio Craveiro da Silva, o padre Júlio Martins, o padre Augusto Vila Chã, um grande amigo, que me acompanhou do 1.º até ao 7.º ano, assim como o padre Sousa Fernandes. Fiz também parte do Orfeão do Liceu Sá de Miranda e dediquei-me muito ao voluntariado, sob forte influência do padre Aloísio de Sousa e do padre Cruz Pontes”, contou, revelando ainda a sua ligação, nesse tempo, à Congregação de São Luís Gonzaga, onde também foi dirigente.

Concluído o liceu, e embora com o Porto mais próximo, ruma então para Coimbra, onde frequentou a Licenciatura em Ciências Geológicas entre 1953 e 1957, substituindo o sonho de ser médico, em particular cirurgião, pela paixão pela Geologia.

“Éramos nove irmãos, sendo eu o quarto, e eram os mais velhos que ajudavam aos mais novos, embora o meu pai tivesse disponibilidade e fôssemos de uma família de referência em Pico de Regalados. Mas apesar de estarmos a 15 quilómetros de distância, só ao fim-de-semana é que íamos a casa, sempre de camioneta, ou então em férias. E o facto é que antigamente quem quisesse tirar Medicina só começava a ganhar a partir do 11.º ano, o que era impensável”, contou. Na aldeia, e apesar de os pais não serem agricultores, detinham propriedades agrícolas, onde o jovem Bernardo praticava, realizando cirurgias a patos e galinhas, e se entretinha com os mais diversos trabalhos no campo, que, por força da prática, ainda hoje sabe desempenhar. Mas é a vida em Coimbra que lhe alarga mais os horizontes e o convívio com grandes nomes como o então reitor José Manuel de Almeida, geólogo e um dos primeiros geotécnicos portugueses, e nomes históricos das lides políticas e das lutas académicas de então, como António Marques Mendes, Vítor Sá Machado, Nogueira de Brito, Zeca Afonso, Luís Goes, Machado Soares e Bettencourt Faria.

Membro do Órfeão Académico, Bernardo Reis ficaria instalado, durante os cinco anos da sua licenciatura, na célebre República dos Paxás, em Coimbra, onde desempenhou sempre as funções de ecónomo, a quem cabia a pesada tarefa de “poupar, senão ao décimo dia do mês já ninguém tinha dinheiro para comer”. Tesoureiro da Associação Académica em 1956/1957, num período conturbado e marcado pelos célebres Movimentos Académicos, Bernardo Reis esteve ligado ao movimento que impediu, em época de ditadura Salazarista, que os direitos da Associação Académica fossem cerceados, protegendo-a do risco de ficar enquadrada na Mocidade Portuguesa.

Sempre ligado ao desporto, fez também parte da organização dos primeiros campeonatos nacionais universitários em Coimbra e promoveu torneios inter-repúblicas, seguindo uma tradição iniciada em Braga, onde praticou futebol no Sporting de Braga e no Centro Académico.

 

“Sempre fui uma pessoa muito aberta e, se não fosse a minha família, ninguém me encontrava aqui. Estava na Austrália ou na África do Sul. Mas é aqui que quero estar. Com eles”.

Terminada a licenciatura, foi convidado para assistente da Universidade de Coimbra, cargo que acabaria por recusar dado o modesto salário, que rondava então os 1300 escudos, optando posteriormente pelo desafio maior de tentar resolver os problemas de abastecimento de água no país.

“Nessa altura a localização da água era efetuada através da radiestesia, e da localização de poços de água subterrâneos, através de uma varinha de oliveira. O grande expoente nesse domínio era então o padre Abel Guerra, um jesuíta das Caldas da Saúde”, lembrou Bernardo Reis, que juntamente com Eduardo Lopes Nunes, que mais tarde seria vice-reitor da Universidade do Minho, acabaria por tornar-se um dos primeiros quatro hidrogeólogos portugueses.

“Resolvemos o problema de abastecimento de água e respondemos da melhor forma à ameaça de Salazar, que afirmara que, se não conseguíssemos resolver o problema de abastecimento a Fátima, chamaria o padre Abel Guerra”, afirmou, esclarecendo que, para encontrar uma solução, os hidrogeólogos optaram então pela espeleologia, ou seja, a pesquisa das grutas e dos poços nos maciços calcários.

A Companhia de Diamantes de Angola
Depois desta vitória, Bernardo Reis passou a prestar este tipo de serviços em todas as Câmaras Municipais ao Norte do Douro até que, em 1960, vai para Angola. “Fiquei então ao serviço da grande Companhia de Diamantes de Angola (DIAMANG), uma única empresa com 50 mil quilómetros quadrados e um milhão e 25 mil quilómetros de área para pesquisa de diamantes, e até 1971 percorri Angola praticamente toda, juntamente com equipas de inspetores e de geólogos para definir os locais onde havia diamantes e encontrar reservas», revelou, acrescentando que em 1971 passaria para os serviços de Inspecção e Geologia e para a área da gestão, seguindo-se os cargos de “diretor de serviços de apoio geral”, “adjunto do diretor geral”, e de “diretor geral”, até que diz adeus a Angola em 3 de dezembro de 1977, ficando para a história como o último administrador da DIAMANG.

O regresso a Portugal marca o ingresso na então Sociedade Portuguesa de Empreendimentos (SPASA), em Lisboa, uma subholding do IPE EP – Instituto de Participações do Estado, mais tarde IPE SA, que utilizou o remanescente do capital das verbas vindas da DIAMANG para aplicar à área mineira (extração de volfrâmio, estanho e cobre), passando depois a realizar consultoria para diamantes em várias partes do Mundo, do Gabão à Guiné Conacri, e à prospeção de esmeraldas no Brasil e na Venezuela.

Também a título regional deu provas de profissionalismo e versatilidade, exercendo os mais diversos cargos nas mais prestigiadas instituições, designadamente na Adega Cooperativa de Vila Verde, na Adega Cooperativa de Barcelos, passando pelo Projeto Homem e pela APPACDM. Depois de deixar a Cooperativa Agrícola de Barcelos, fez parte do Conselho Fiscal da Santa Casa da Misericórdia de Braga durante três anos, assumindo o cargo de vice-provedor em 2003, ano em que se aposentou, passando, posteriormente, a provedor, em dezembro do mesmo ano, cargo que assume até hoje.

Membro ativo da Direção Nacional da União das Misericórdias Portuguesas ao longo de seis anos, assume ainda hoje a responsabilidade pela área do Património, vertente em que muito tem contribuído para a recuperação, divulgação e preservação do património das misericórdias. A este nível apostou na criação de núcleos museológicos, centros interpretativos, exposições, revistas e boletins, tendo sido o responsável pela primeira revista e pelo primeiro boletim da Misericórdia de Braga.

 

 

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