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“É possível viver do humor em Portugal. O artista tem é de trabalhar para isso”

Chama-se Pedro Agostinho de Oliveira Pereira Soares, Pedrinho Soares no FIFA. Tem 24 anos, é da geração de ouro de 94, como também diz. Nasceu em Braga e é por lá que vive, com muitas deslocações à capital. Faz imitações de vozes, piadas… tudo o que faça os outros rir. Se fosse Presidente da República por um dia visitava a Embaixada Portuguesa da República Dominicana. Diz que é possível viver do humor em Portugal, mas compete ao artista trabalhar para isso.

Como foi a tua infância?

A minha infância foi acima da média (risos)! Como sempre vivi em Braga, sei que os meus colegas e amigos que eram da cidade tiveram uma infância mais caseira, a liberdade para andar na rua não é tanta. Como tenho avós em Crespos, passava os fins de semana sempre lá e sentia aquela magia de brincar na rua, de jogar à bola lá, o que na cidade é mais difícil de acontecer.

A tua família, na infância, percebia seu talento para comédia?

Eu sempre senti um bocadinho isso, mas não vejo qualquer ligação com o trabalho que vou fazendo hoje. Na família, dos netos rapazes, quatro estavam em França e eu era o único cá. O resto são raparigas. E, por ser o menino, sempre senti aquele carinho especial da parte de todos, achavam piada a tudo que fazia. Uma criança já tem piada por si só e, por eu ser o único rapaz, chamava um bocadinho mais a atenção.

 

Como te aventuraste no humor, como foi o início?

Diria que foi por degraus. Eu gostava muito na escola de participar em teatros de Natal. Chegou a um ponto em que apareceram os Gato Fedorento e eu transcrevia os sketches deles e apresentava-os em teatros na escola. Entretanto começou a aparecer o Youtube, comecei a fazer uns vídeos amadores vergonhosos para carregar lá e foi por aí que começou (risos). O meu primeiro público foi o da sala de aula, mas sempre com o maior respeito para com os professores. Não era aquele aluno que interrompia a aula de forma menos educada, então sentia que os professores também criavam uma relação de empatia comigo. Era aquela piadinha simpática e com respeito, não fora de tempo.

Quando é que as piadas começaram a ter um contorno mais sério?

O contorno mais sério foi sobretudo ganho quando o meu pai foi presidente da junta em Crespos e tentou dinamizar um pouco a freguesia. Começou a levar a Crespos para atuarem alguns nomes a que naquele ambiente rural as pessoas só tinham acesso pela televisão. Organizou lá espetáculos com o Herman, Fernando Rocha, Quim Roscas, João Paulo Rodrigues, Pedro Alves… E a acompanhá-los estava o agente deles da altura, o Miguel Belo. O meu pai, como todos os pais que têm um filho que anda na música ou no futebol, foi falar com o agente sobre as minhas qualidades artísticas (risos). O Miguel, que hoje trabalha comigo, disse-me mais tarde que na altura deu pouca importância porque, como trabalha no meio do agenciamento, existe muita gente que indica vizinhos, parentes, etc.. Para minha sorte, aquilo ainda assim despertou-lhe alguma curiosidade, se calhar por ser menos comum haver gente a fazer imitação de vozes. Foi espreitar os vídeos e entrou em contacto comigo, disse que tinha achado aquilo interessante e que gostava de conversar comigo para ver a possibilidade de trabalharmos em conjunto. Foi quando as coisas ganharam um contorno mais sério.

Às vezes, em conversa com pessoas sobre futebol e a violência no desporto, costumo dar um exemplo que se aplica a mim. Dos meus maiores amigos, um deles é adepto do Vitória, outro do Braga, um do Sporting e outro do Porto. Damo-nos todos lindamente e festejamos os golos da Seleção abraçados.

Estudaste Ciências da Comunicação. Porquê?

Sempre gostei de Comunicação. Antes de entrar para Universidade já tinha esta ideia de querer trabalhar na comédia, mas não existe nenhuma licenciatura em humor e os cursos de teatro são sempre mais direcionados para o drama. Embora hoje sinta a necessidade de formação como ator e como artista de comédia, o que eu queria na altura era só comédia. Dentro dos cursos que via, Ciências da Comunicação não digo que se enquadrava, mas tinha algumas linhas próximas, e um comediante não deixa de ser um comunicador. Ciências da Comunicação foi o curso que mais me despertou o interesse, sempre com a ideia de ser comediante. Depois de entrar no curso, lembro-me de ver no placard que dá acesso ao bar da faculdade os estágios em letras garrafais. Foi aí que reparei na Benfica TV. Desde então, a minha grande motivação no curso passou a ser um dia trabalhar lá.

Não preciso de perguntar se és benfiquista, pois não?

Desde o dia em que nasci o meu pai inscreveu-me como sócio, portanto, não tive outro caminho, felizmente. (risos)

A nível profissional o que tens feito?

A tempo inteiro estou a trabalhar com o meu pai que tem uma empresa de comércio de peças. Não tem a ver com humor, mas sinto que algumas disciplinas de comunicação foram importantes para algumas atualizações que tenho tentado introduzir na empresa. Aos fins de semana estou quase a tempo inteiro com coisas ligadas à comédia, escrevo para o jornal do Benfica, tenho lá uma coluna, mais virada para humor. Vendo seguros também! (risos) Portanto, sou uma pessoa muito versátil e também jogo FIFA em casa, embora o tempo já não seja tanto como eu gostaria, mas é isto que vou fazendo. Não jogo mais futebol pois fui operado e a minha carreira brilhante está suspensa. (risos)

Achas que é possível viver de Humor em Portugal?

Sim, é possível. Eu também acabei por ser um bocado influenciado pelo meu pai, pois quando acabei o curso estive quatro meses na Benfica TV… Entretanto nasceu em Braga um projeto chamado O Minho Desportivo, um jornal cuja ideia era tratar de tudo que era desporto: não só futebol, mas de todas as outras modalidades na região do Minho. Entrei em maio, tinha acabado o curso em novembro e tive umas mini férias que não foram bem férias, pois estive no projeto em conjunto com outros colegas que terminaram o curso comigo. Fiquei uns tempos em casa também a fazer coisas dedicadas à comédia. Na cabeça do meu pai eu era um filho que estava parado. Ele dizia que eu podia ir para a empresa, que podia fazer algo… Acabei por aceitar o desafio dele e ir para lá. A verdade é que quando uma pessoa está ocupada se calhar pensa que era fixe estar seis meses parada, mas depois a comédia também não consome um dia inteiro de trabalho. Se calhar há dias em que sim, mas depois na semana a seguir já não. Aquela coisa de estar mais parado em casa acabou por me fazer optar por aceitar o desafio dele e ir para lá. Entrei lá numa rotina de horários fixos, a tempo inteiro – embora tenha a minha liberdade, porque há trabalhos relativos à comédia que vão surgindo e podem ser a qualquer hora – e a verdade é que se estivesse a trabalhar noutra empresa isto seria muito difícil. Numa situação dessas penso que iria manter-me só com a comédia em detrimento de outro trabalho que não fosse possível conciliar. Acho que é necessário o artista trabalhar para isso. Eu sinto que se calhar não tenho tantos trabalhos como poderia ter porque se calhar não me dedico tanto. Quem se dedica mais está mais sujeito a mais trabalhos. Mas sim, acho que sim, sem dúvida que é possível. O artista tem é de trabalhar para isso e conquistar público.

Nunca ninguém te disse que não tinhas um trabalho a sério? Qual era a reação das pessoas quando dizias que querias ser humorista?

Eu acho que isso está mais associado aos Youtubers. No caso dos comediantes, pelo menos aqueles que estão quase a tempo inteiro na televisão, ninguém lhes vai perguntar isso porque acompanham o trabalho deles no dia a dia. Se calhar parte do meu trabalho acaba por ser mais escondido, mas nessa fase em que eu dizia que se calhar um dia queria ser comediante… Os meus pais acho que nunca valorizaram muito. Nunca me cortaram as pernas, nunca me destruíram o sonho, acho que sempre foram permitindo que eu seguisse o meu próprio caminho. Nunca senti esse problema. No meu caso em particular, muitas das pessoas mais próximas até pensam que estou a viver em Lisboa, quando eu só estive lá aqueles quatro meses na Benfica TV. A minha vida é em Braga, vou é muitas vezes ao Porto e a Lisboa. Tenho muitas atuações em eventos empresariais que não são divulgados em nenhum meio, eventos fechados, festas privadas, há muitos trabalhos desses. Depois há aqueles trabalhos com maior exposição, ainda há pouco estive no Levanta-te e Ri e tive logo imensa gente a mandar-me mensagens, acho que o pessoal gostou bastante. Também quem não gostou acho que nunca vai dizer nada (risos).

Ou seja, haters também não tens?

(risos) Oh, disso há sempre qualquer coisa, há sempre alguns! Mas sinto que há mais por causa da questão clubística. Acabo por estar associado ao Benfica, certo? Também não faço questão de esconder, não faz sentido. No outro dia o Raminhos fez anos e eu, dois ou três dias antes, tinha visto uma fotografia no meu telemóvel do tempo do 5 Para a Meia-Noite, em que eu tinha para aí 15 anos e o Raminhos também estava totalmente diferente de agora: sem barba, um cabelinho meio estranho (risos)… Publiquei aquilo no Instagram a dar os parabéns e a dizer “os anos não passam por ti”. Recebi logo uma mensagem de um indivíduo: “os anos não passam pelo Raminhos, mas tu continuas com cara de atrasado mental” (risos)! Mas pronto, era um tipo com uma camisola do Porto, numa bancada, de tocha na mão… Acho que foi mesmo por causa do clube. É mais nesse sentido que aparecem os chamados “haters”. Eu tento ignorar…. Uma pessoa acaba sempre por ler, mas acho que lido mais com isso como piada em vez de ficar ofendido, zangado ou abatido. Sei que o meio do futebol é mesmo assim, infelizmente. Às vezes, em conversa com pessoas sobre futebol e a violência no desporto, costumo dar um exemplo que se aplica a mim. Dos meus maiores amigos, um deles é adepto do Vitória, outro do Braga, um do Sporting e outro do Porto. Damo-nos todos lindamente e festejamos os golos da Seleção abraçados. Aqueles que são fanáticos, mesmo quando se trata da Seleção, querem é ver os jogadores das equipas adversárias a jogar mal.

Quais são os teus planos a curto e longo prazo?

A curto prazo estou aí com um projeto para o Instagram, mas ainda não posso dizer o que é! (risos) A médio e longo prazo… logo se verá (risos).

Achas que os portugueses são bem-humorados?

Já achei mais. A caixa de comentários do Facebook não é o melhor indicador para uma pessoa fazer essa avaliação, mas acho que essa questão do humor passa um bocado por aquilo a que assistimos no Facebook e nas redes sociais, com cada vez mais zangas. Uma pessoa tem uma notícia ou publicação a dizer que a meteorologia indica sol, o tempo vai estar bom, vai para a praia… Aparece logo alguém a dizer que o sol é uma porcaria, que a chuva é que faz falta. Acho que as pessoas são demasiado sensíveis em alguns temas que as tocam e o futebol é um deles. Se alguém diz uma piada sobre o meu clube, a regra é eu ficar muito ofendido e não gostar nada daquilo… Acho que não pode ser assim, devemos respeitar porque, se formos a ver, qualquer um de nós tem uma área que nos diz mais respeito. Quando acontecer não nos identificarmos ou não acharmos graça a uma piada, seja por que motivo for, acho que não temos outra solução senão respeitar: eu posso não gostar, mas há quem goste. Acho que falta um bocadinho esse bom senso.

 

Achas que a Internet contribuiu para esse aumento de quezílias, se calhar potenciadas pelo anonimato?

Eu acho que é isso, a Internet permite mesmo essa facilidade de insulto. “Ah, estou aqui protegido, posso dizer o que me apetecer”… Quando se fala dos haters geralmente são mais os Youtubers, digo eu. Os jogadores de futebol também têm, mas nem tanto. O facto é que os Youtubers são pelo menos mais abertos a falar sobre isso, mesmo em entrevistas.

Há quem diga que a partir do momento em que as pessoas se expõem publicamente, têm que se sujeitar a tudo. Concordas?

Eu concordo com isto: uma pessoa que está exposta tem de estar consciente de que vai lidar com esse tipo de situações. Não significa é que o público esteja correcto, acho que a sociedade deve ter o tal bom senso de que eu falava há pouco. Não é por eu não gostar disto ou daquilo que vou insultar a pessoa! Até posso fazer um comentário, uma crítica construtiva do género “não fizeste bem isto, por esta razão ou por outra”, mas um comentário para simplesmente deitar abaixo acho que não devia ser feito. Agora, do lado do artista ou da tal figura pública, acho que não há muito como fugir a isto, sobretudo jogadores de futebol ou figuras como o Jorge Jesus: não têm qualquer hipótese. Desde que as pessoas não sejam ofensivas, não acho grave.

Costumo dizer que o Marcelo tanto está a visitar uma Universidade qualquer no Algarve, como está em Vila do Conde a visitar o café do Toni onde está a decorrer a final do torneio de dominó. E está só a assistir porque foi eliminado nos quartos de final do torneio!

Achas que se pode brincar com tudo?

Acho que sim, mas não significa que eu brinque com tudo. Também depende muito dos timings em que a brincadeira é feita e, uma vez mais, do bom senso, só que desta feita do artista. Por exemplo, na apresentação da revista Minha não fui para lá com piadas ligadas à pornografia, ou vocabulário mais burlesco. Mas se calhar se estiver num espetáculo à noite, como o SolRir, onde estive há pouco no Algarve, já estou mais à vontade. Posso ir até onde quiser, depende só do conteúdo que eu quiser para mim enquanto artista, posso até ultrapassar esse limite. Não tenho por regra fazer humor negro, por exemplo, que é o formato que se coloca mais em questão quando falamos de limites. Mas há comediantes que fazem e têm o seu público. Depois também cabe ao público escolher: se sabe que determinado comediante tem um tipo de conteúdo e conceito, quando o vai ver, já sabe para o que vai! Se não gosta, para que vai ver? O Rui Sinel de Cordes, por exemplo, decidiu apagar o Facebook dele. O que é que acontecia? Ele tinha lá o público dele em massa, que gostava dele e ia dando feedback aos trabalhos que ele fazia… O que é que estava a acontecer na página dele? As pessoas iam para lá não só enxovalhá-lo a ele, mas também ao público que lá estava. Agora temos polícias dos gostos? Eu é que sei do que tu podes gostar ou não? Não, nós somos livres! Foi assim que ele decidiu acabar por completo com a página. Se foi o melhor que fez, não sei… Hoje em dia o Facebook também tem decaído, o Instagram está mais em alta. Mas o Rui continua a trabalhar, por isso… É verdade que é uma porta que fecha ao público dele, mas depois também há duas ou três que se abrem.

Temas tabus, tens?

Não. Os meus temas acabam sempre por ir ter ao futebol e à política. Mas quero cada vez mais poder oferecer outro tipo de conteúdo, como irá acontecer com este projeto do Instagram. É um pouco esse caminho que a médio prazo quero percorrer, porque temas como estes são sensíveis e, se é verdade que estou a dizer que isto não faz sentido ser assim, a verdade é que vai continuar a sê-lo. Tenho é de compreender isso e se calhar procurar temas mais fáceis de gerar consenso, em vez de ódio e controvérsia.

Se pudesses ser Presidente da República por um dia, que farias?

Claro que num dia só não farias nada… (risos) Se fosse o Marcelo, nem tempo para dormir teria porque o homem não para um segundo. Costumo dizer que o Marcelo tanto está a visitar uma Universidade qualquer no Algarve, como está em Vila do Conde a visitar o café do Toni onde está a decorrer a final do torneio de dominó. E está só a assistir porque foi eliminado nos quartos de final do torneio! Se eu fosse Presidente da República acho que se calhar delegava na Secretária essas visitas e passava um dia inteiro… (risos) sei lá… a visitar a Embaixada Portuguesa na República Dominicana (risos)! Bom, provavelmente a viagem já ocupava metade do dia, por isso o ideal era ter um mesinho para ser Presidente da República (risos).

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