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Conto

Capítulo XII: Deixar ir

É preciso deixar ir, deixar livre o que não nos pertence, deixar voar o que tem asas. Deixar ir, simplesmente. Camila não procurou mais, não tentou perceber, não fez mais nenhum esforço para que pudesse ter mais uma oportunidade. Camila simplesmente deixou ir. Mas sabem aquele deixar ir que só não está presente fisicamente? Aquele deixar ir que vai, mas que fica? Aquele deixar ir que nos diz adeus, mas que permanece com um olá dentro de nós? Aquele deixar ir que é uma espécie de estado que voa, mas que os pés não saem do chão?

Pois. Era assim o deixar ir de Camila. Um deixar que deixa e que vai embora, de facto, mas que continua a morar e a alimentar-se da pessoa. Mesmo que não se perceba ou se faça por isso. “Não há dúvida deste amor, ele mora no coração de Camila. Porém, há coisas que não são para ser nossas, há peças que não encaixam no mesmo puzzle. Talvez Camila & Gonçalo façam parte de um caminho diferente. De um destino que não se cruze para além das viagens num comboio. Confesso que no início não achava ser possível este amor louco que Camila nos fazia crer que existia dentro dela, e ainda me mantenho um pouco cética, mas percebo agora que ela tem um amor que não chega a partir, que não encontra um lugar preenchido no seu coração, porque ele continua livre para o Gonçalo estacionar.

Se eu pudesse sair destas palavras e dizer a Camila que há tanto ainda para sentir. Que ela simplesmente não pode deixar de olhar para o mundo só porque ele não tem o Gonçalo presente. A vida é muito mais. E ele talvez tenha medo do arco íris que Camila abarca. É verdade. Camila tem uma luz ímpar e uma verdade que lhe explode dos olhos e da boca e do coração. Ela é realmente especial e tem um jardim dentro dela que não murcha. Ela tem flores e cores. Que o melhor ainda esteja para lhe acontecer, que o melhor ainda lhe esteja reservado num cofre de coisas boas e bonitas e especiais. Acho que ela é merecedora deste amor, mesmo que ele seja esquisito e curto demais para fotografar… Ainda!”.

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Borboleta, és também tu um pedaço de cor nesta história, e eu também gostava que as coisas ganhassem outro pedaço de suspiro, mas vejo daqui de cima que ela está bem. Talvez Camila já nem queira ou pense, talvez ela tampouco sinta falta daqueles dias em que o Gonçalo lhe trazia uma nova cor a preencher o seu dia. Camila seguiu com a vida dela e o Gonçalo, pura e simplesmente, desapareceu. Ele nunca se justificou, ele nunca lhe enviou uma mensagem a lamentar o dia do café, ele não esteve nunca mais. Foi uma atitude que não é sujeita a julgamentos, mas que todos sabemos bem que não é uma atitude que mereça aplausos. O que fosse, o que quer que fosse, valia e tornava-se menos doloroso de se aceitar.

Camila eliminou o contacto de Gonçalo, colocando-se em primeiro lugar. Uma mulher independente não depende de outro homem para ser feliz, sabemos. E Camila era resolvida. Como tal, não olhou para trás. Seguiu, mesmo com uma ferida aberta e um amor por completar. Mas ela seguiu. Sim, seguiu. Linda e independente. E, entretanto, nove anos passaram. Camila foi conhecendo pessoas novas, mas nunca mais soube o que era o despertar do amor. Será que quando ele se sente uma vez, de tão genuíno e puro que ele é, nunca mais se volta a sentir o mesmo sentimento? Afinal ele só se encontra uma vez, não é? Ele é irrepetível, não é assim?

“Oh caraças! Se assim for, quer dizer que Camila nunca mais vai sentir borboletas? Nem tampouco ver o arco-íris? Não posso crer!”. Tento na língua borboleta, há crianças por aqui. Eu não sei, a verdade é que já passaram nove anos, e julgo que nem Camila se deu conta de o mundo estar a girar e a acontecer em torno dela. Ela deixou ir e deixou passar a vida, sem olhar, sem observar bem as coisas, pessoas incríveis ficaram para trás, pessoas não tão incríveis também (estas não interessam nada, please). Enfim, foi vivendo sem borboletar. Sem pressas. Indo. Voando. Sendo. Fazendo. Imaginando. Sonhando. A seguir com a sua independência, nunca deixou de ser menor. “Sim, blá, blá, blá. Eu estou sentada no sofá a querer um final bonito para este amor, que tem tanto de cor. Caraças. Não pode morrer cinzento.”

(a próxima edição continuará a acrescentar confettis de amor a esta história)

Juliana Gomes, escritora
E-mail:
escritorajulianagomes@gmail.com
Instagram: @juli_ana_juli

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