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© Team Braga
Treino

Parkour: A Arte dos Tempos Modernos

Saltos, deslizamentos, diversão e espírito… Neste mês apresentamos-lhe uma atividade que, mais do que um desporto, pode ser considerada uma arte que combina paixão e equilíbrio mente-corpo. Para perceber melhor o que é o Parkour, estivemos à conversa com Stanislav Nosov, presidente da Associação Portuguesa de Treino de Rua e Parkour (SWA) e membro da Team Braga, que nos contou tudo sobre esta modalidade urbana e nos deixou conhecer mais sobre a sua experiência como traceur.

A palavra Parkour vem do francês parcours que, em português, significa “percurso”. Na sua essência, esta arte urbana onde os homens são chamados traceurs e as mulheres são conhecidas como traceuses, consiste na superação de obstáculos, sejam eles físicos ou mentais. O Parkour é também conhecido como LÅfArt du Déplacement. Nasceu nos anos 80, nos subúrbios de Paris, onde o ex-militar e bombeiro Raymond Belle começou a ensinar ao seu filho David Belle um treino físico que aprendeu no exército chamado “Método Natural”. Este é originário de algumas tribos indígenas da África, que têm como objetivo utilizar o corpo de maneira útil e eficaz para saltar, correr, trepar e esquivar-se de obstáculos. Aqui cada atleta é individual e não existem padrões, o que resulta em diferentes estilos. “Cada um é como é. E isso é que é bonito”, afirma o presidente da SWA, Stanislav Nosov. É essa liberdade estilística própria de cada atleta que realmente confere substância e alma verdadeira a esta disciplina, convertendo-a assim numa arte freestyle. 

A arte urbana do Parkour começou a ser praticada primeiro nas ruas e só depois nas academias, o que fez com que esta disciplina se tornasse muito mais do que conseguir ultrapassar um obstáculo indo de um ponto A a um ponto B. O Parkour é uma atividade desportiva de superação que implica diversão, constância, compromisso e dedicação. Princípios que são fundamentais para conseguir evoluir nesta disciplina, tal como refere Nosov. “O Parkour deve ser encarado em primeiro lugar como um divertimento, o que cria uma vontade na pessoa de querer fazer um movimento. Não vou fazer um salto só porque quero evoluir o salto, quero fazê-lo porque dá-me prazer fazer o salto. Só ali é que eu vou evoluir. Não insistindo, indo de forma devagar e muito gradual”, diz. Portanto, o que aqui realmente importa é estar interessado e comprometido com a prática desta disciplina, já que “a pessoa tem de perguntar a si mesma se realmente é isso que quer”. É um erro aderir ao Parkour só por uma questão de moda, já que o percurso evolutivo de um traceur encara muitas realidades que por vezes podem ser duras e difíceis de enfrentar. Em grande parte, a evolução vai depender da atitude e do nível de compromisso do traceur.

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L’Art Du deplacement pode ser praticada por qualquer pessoa, em qualquer idade. “Eu comecei com 29 anos no Parkour. Já fazia outras acrobacias. Era atleta de street workout e já tinha uma preparação. Não comecei de zero, mas comecei bastante tarde. Agora alguns dos membros da Team Braga são mais novos do que eu e começaram logo aos 13 ou 14 anos. Temos atletas que já têm mais de 10 anos no Parkour”, comenta Nosov. Até é possível começar mais cedo, o importante é ter sempre em conta as necessidades do praticante e a personalização da atenção e dos treinos segundo as idades. “Na academia, com os nossos alunos, começamos a partir dos 6 anos. Na minha opinião é possível começar mais cedo, até com bebés que têm dois anos e conseguem andar já dá para começar. A única questão que pode haver aqui é não ser igual a termos crianças de 6, 7 ou 8 anos, com as quais já podemos trabalhar em grupo. Quando temos uma criança mais pequena é preciso uma atenção individual, mas na minha opinião deve-se começar o mais cedo possível”, acrescenta o presidente da SWA, deixando perceber que nunca é cedo demais para começar a formar a um traceur.

A prática do Parkour traz um pack de benefícios positivos que beneficiam a saúde e a condição física das pessoas. O Parkour é uma atividade que ajuda a melhorar as relações sociais e a autoestima daqueles que o praticam, já que à medida que os traceurs vão superando obstáculos e vão evoluindo, vão ganhando segurança e conhecendo também muitas pessoas. “O Parkour em primeiro lugar é uma comunidade. Não começamos por ser um desporto. O Parkour não é só um desporto! Tem espírito, tem alma e tem uma filosofia muito própria que começa na comunidade”, comenta Nosov. As comunidades de Parkour costumam ter um ambiente familiar, que talvez à primeira vista seja difícil de perceber, mas que se torna óbvio depois de a pessoa já estar inserida, tornando-o muito mais interessante do que imaginava.

Também é evidente que, tal como ocorre em qualquer outro desporto, no Parkour podem acontecer alguns acidentes. No entanto, as estatísticas de acidentes nesta disciplina são muito menores do que, por exemplo, no futebol. “Só corre mal quando os atletas abusam”, diz Nosov. Grande parte dos acidentes que ocorrem implicam lesões muito simples que geralmente acontecem nos momentos de divertimento, onde o traceur por vezes não repara nos cuidados que deveria ter, nem respeita os tempos de aquecimento prévio, porque “quando o atleta está a fazer um movimento difícil, ele está preparado, está superconcentrado”. Portanto, é possível dizer que o Parkour é uma atividade segura, onde as probabilidades de lesões são baixas e os acidentes que ocorrem estão relacionados com a falta de concentração e a falta de preparação física, psicológica e muscular do traceur. 

Team Braga

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Em Portugal há muitas equipas profissionais de Parkour. Em Lisboa está a Line Team e no norte encontram-se a Energy Vault Team e a Team Braga. Estes últimos são formados por 11 membros, entre os quais se encontra Stanislav Nosov. A Team Braga começou a ganhar seguidores no ano 2015, depois da sua participação no Got Talent Portugal, onde conseguiu chegar às semifinais. “Basicamente a partir do Got Talent é que mudou tudo, porque antes do concurso nós fazíamos as coisas de forma mais amadora. O Got Talent, no fundo, obrigou a equipa a ensaiar muito e a criar performances. E percebemos o que é realmente o trabalho em equipa”, refere Nosov. Esta oportunidade foi o impulso que a Team Braga precisou para se decidir a entrar no mundo do Parkour profissional. “No fundo, decidimos fazer isso porque houve muitos pedidos para diversos tipos de serviços”, diz o atleta. Atualmente a equipa dedica-se não só ao ensino, mas também participa em diversos eventos, como animação de festas, feiras medievais, circos, e realizando inclusive trabalhos como atores duplos. 

A constância e o tempo fizeram com que a Team Braga se consolidasse e começasse a aperfeiçoar e repensar o seu espetáculo. Após anos de muito trabalho, a equipa cresceu e os seus membros conseguiram ganhar a experiência que antes não tinham, o que, juntamente com as oportunidades que ganharam graças à participação no Got Talent Portugal, os ajudou a concretizar o projeto que é hoje conhecido como Academia Eu+. “A Academia já tem três anos e temos os nossos novos alunos, os tais nossos filhos, digamos, que este ano também foram ao Got Talent”, relata com orgulho Stanislav Nosov. Ao mesmo tempo afirma que a Equipa Eu+, como se intitulam os pupilos da Team Braga, tem muito mais potencial do que os outros membros. “Eles já têm onde treinar. Nós treinávamos na rua, no duro, não havia condições de segurança, nada. Não tínhamos professores. Tínhamos que pesquisar e estudar tudo por nós. Agora já é completamente diferente”, afirma. Até ao momento, os resultados que os jovens da Equipa Eu+ conseguiram nos castings do concurso de talentos foram muito positivos. Agora só resta esperar e ver até onde é que vão conseguir chegar. 

Girl Power no Parkour

O Parkour não discrimina, é uma atividade para todos! Globalmente é uma atividade que tem ganho muita popularidade entre o público feminino. No entanto, em Portugal ainda são poucas as mulheres que praticam esta atividade já que, por vezes, alguns fatores e tabus – como a vergonha, ou o facto de as equipas serem formadas na maioria por homens – exercem uma certa influência que faz com que algumas mulheres desistam da ideia de entrar neste mundo. Porém, há cada vez mais mulheres que começam a olhar para o Parkour como uma forma divertida de acabar com os estereótipos e de se sentirem poderosas.

 

 

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