Conto

Capítulo XIV: Vamos falar de amor?

Eram seis da manhã e Camila acorda. Sem noção das horas, começa a preparar as coisas para o trabalho. Com calma, afinal o despertador ainda não tinha tocado, toma banho, prepara o pequeno almoço, veste-se, e eis que o som do despertador dá sinal de existência. “Que som horrível, Camila! Já mudavas esse galinheiro. Se o meu despertador tivesse um som de um início de manhã desses, só havia uma forma de eu acordar. De mau humor! Não sei como ela consegue. God! Please!”. Por muito que eu vos quisesse identificar um som semelhante, acho que não é possível, é horrível demais. Bem, mas acho que o melhor mesmo é ignorarmos este assunto. “É melhor!” (risos). Tenho que concordar, borboleta, há coisas que ninguém dança (gargalhadas). 

Antecipadamente pronta, decidiu apanhar o comboio para o Porto e fazer tudo o que tinha agendado mais cedo. Entra no comboio e, com tantos lugares vazios, inicia uma brincadeira parva. Ainda era cedo, e então achamos: “ninguém está a ver, podemos ser felizes sem julgamentos”. Senta-se e levanta-se dos vários lugares disponíveis e ri-se enfaticamente. Após algum devaneio, começa por deixar o som do riso mais interior – “já chega de cenas!” –, mas ainda existente, e escolhe finalmente o lugar que lhe parece mais simpático. Tira o casaco e arruma a mala. Deixa-se apaziguar: “por hoje já chega de circo” (esboçando um sorriso tonto).

Mais tarde, e já em modo “pessoa normal”, alguém se senta ao lado dela. “Hoje é uma escolha difícil. Compreendo! Os lugares livres para sentar não chegam. Quem me manda a mim escolher sempre o melhor lugar? Eu percebo que ir sozinho num comboio onde há imensos lugares vazios, «it’s boring!»” – disse-o de uma forma inaudível, claramente, em que só pensamos quando a vontade real é fazer explodir em som da nossa boca. Camila não se esconde, como seria de esperar deste ser espontâneo, e começa a interiorizar aquilo e a rir-se num som cada vez mais gradual, até que lhe explodem emoções pela gargalhada. Este dia realmente podia ser intitulado de “O riso de uma rapariga que não consegue fazer mais nada para além de rir no dia de hoje”. Já sem coragem para mais, “desculpe se pareço um ser maluco, mas tem que concordar que é surreal sentar-se à minha beira quando todos os outros lugares estão vazios.” Mal termina a frase, encara o sujeito e fica completamente boquiaberta e figura estática. “Ai, por favor, uma moeda já para que isto mude de posição”. Alguém concedeu o teu desejo, borboleta! – “Gon. Gon. Gon. Gonçalo??????” – Não posso exagerar nos pontos de interrogação, mas conseguem perceber que eram merecidos mais. Pois. O Gonçalo diante dos olhos dela mais uma vez. Estaria aquilo a ser um sonho?! Afinal o despertador deu a sensação de ter adormecido naquele dia. Será que foi o único?! Não estou a conseguir controlar a minha emoção. E eis que eles mais uma vez se tornam. Eles novamente. Eles a conjugarem-se. Eles ali, lado a lado, mais próximos do que nunca, mais vivos do que há nove anos, mais bonitos, mais tocáveis, mais possíveis. Sim. Sim. Siiiiiiim. E, sim, tipo aquele anúncio do shampoo. “Opah, não quero que isto termine nunca. Xiiii, somos tão pirosos e ainda bem.”

Eles continuavam com os olhos permanentes um no outro, sem respostas, sem reticências, sem desperdícios, sem medos, sem nada, mas com tanto. Haviam-se misturado cores. Começou por tocar uma música romântica. Havia amor. Havia o que já não há. Era tudo imensamente imenso. Ficaram assim segundos, mas pareceu uma infinidade. Parece que o tempo morou ali para sempre, quando o comboio nem tampouco iniciou viagem. “Queres que mude de lugar?! Não sabia que era assim tão parvo escolher o lugar mais bonito do comboio” – expressou Gonçalo com um sorriso estampado na cara. E que sorriso cor do céu. Bonito e perfeito demais. Camila retribuiu o sorriso e ficou embevecida. Ela só desejava que o comboio atrasasse ou que lhe saísse uma roda, mas, “por favor, sem ninguém morrer!”.

O silêncio fez parte da viagem, mas é aquele tipo de silêncio que é barulhento e que não precisa de palavras, basta a presença e o cheiro de quem está. O que aqueles dois estavam a espalhar no ar tinha uma força tão imensa que as flores respiraram pela primeira vez e os objetos ganharam vida depois dali. Se isto não é amor, e se estes dois não foram feitos para se completar, então esqueçam, eu não percebo nada de amor. Se calhar é isso. Só imagino o que ele seja, pois na realidade ainda estou longe da sua definição. Nem eu acredito no que acabei de escrever, e apesar de tudo parecer tão longe da realidade que vivemos e isto dar a sensação de se transformar num balão gigante de amor, acredito na essência e na verdade destes dois para resultarem. Vocês não?! Quem for do contra que se deixe estacionar por aqui até ficar envolvido num arco-íris de gomas marshmallow de amor. Sim, isto existe! Não sejam do contra outra vez. Vá! 

Que dois seres num mundo criado ímpar, e que duas peças perfeitas para se encaixarem. 

A viagem chegou ao fim. Camila respirou fundo e começa um diálogo interior: “não podes perder esta oportunidade de lhe dizer o que sentes. Não podes simplesmente ignorar a sua presença. Sabes lá quando o voltas a ver! Diz-lhe tudo, Camila! Diz-lhe tudo! Vai. Coragem. Aos três abres o coração. E. Um. Dois. Três.”. E assim foi. Aos três já estavam as primeiras palavras a saírem-lhe pela boca. 

– Gonçalo, se te quisesses desculpar por não teres aparecido no dia em que combinamos o café, já o tinhas feito, eu sei. Mas deixa-me só dizer-te que me magoaste. Muito. Não por não teres aparecido, porque podia ser eu na inversão de papéis, foi por não te teres importado, por não me teres ligado, ou sequer, enviado uma mensagem para que eu pudesse ter ficado com uma impressão menos negativa sobre ti. Mas, nada. Tentaste ao menos trocar de posição? Eu jamais te faria isso! Tivesse o assunto mais ou menos importância. Mas é uma mania minha de achar sempre que os outros são como eu. Sinceramente? Achei feio, achei uma atitude imatura e insensível demais. Mas já fiz reciclagem dessa atitude de miúdo. Sim, és um miúdo com cara de adulto. Não te conheço, é verdade, e talvez tenha sido eu a precipitar-me quando te defini. Pois na verdade, eu só te vejo. Não é?! De que vale?! – Pausa para respirar fundo. – Muda de um tom de voz mais forte para um tom de voz incrédulo. – Oh meu Deus! Acabei de ouvir a minha voz ou foi só o meu pensamento agudo?! Ouviste tudo o que eu acabei de dizer?! Medo? Não! Isto é um UAU! Estou impressionada! Okey, esta parte sou eu a falar sozinha. – Outra pausa para se tranquilizar – Pronto, olha. Se queres mesmo saber?! Ainda bem que o disse! Esperei uma vida para te dizer esta porcaria. Fica bem, Gonçalo! – terminadas as últimas palavras, pega nas suas coisas e não se permite enfraquecer. Saiu da beira de Gonçalo com uma atitude de diva. Sim, divando pelo comboio para não lhe mostrar importância. Assim foi! “You go, girl. Oh yeah! A adorar!” Também adorei esta Camila em modo diva, só lhe falta colocar aqui algum delay e ventoinhas. Vamos aprimorar isto que ela bem merece! (risos). 

A introdução da última frase não evitou a curiosidade das pessoas por ali, e Gonçalo ficou sem reação. Quando Camila saiu do comboio, sem olhar para trás uma única vez, com o coração perdido (mas isto ninguém precisa de saber), Gonçalo ficou a meditar sobre tudo aquilo e o que seria toda aquela transformação que se tinha dado diante dele. Ele viu Camila como nunca a tinha visto. 

“Foram precisos nove anos para o Gonçalo ter a inteligência de ver a mulher que lhe começava a escapar? Vai buscar a cana, rapaz!”. Borboleta, não sejas tão indelicada. Vamos deixá-los entender-se. Eles já são crescidos e também não sabemos o que aconteceu para o Gonçalo não ter aparecido no dia do café. Não sabemos! Não o vamos julgar de forma precipitada. 

E, sem muros a separar os dois, Gonçalo sentiu pela primeira vez que o mundo derrubou a sua alma e que Camila tinha toda a razão para estar desolada com a sua atitude.

– Desculpa! – expressou Gonçalo quando Camila lhe tinha desaparecido da vista, mas entrado diretamente no coração. Em jeito de amor e chocolate quente. 

(a próxima edição continuará a acrescentar confettis de amor a esta história) 

Juliana Gomes, escritora
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