Opinião

Manifesto (ou apenas texto): por um isolamento social produtivo e ativo

Eu sei: ninguém estava a contar com isto e estamos assustados, alguns de nós estarão mesmo em pânico, nomeadamente aqueles que veem a sua situação laboral em risco com esta obrigatoriedade mundial do isolamento social. O setor cultural, então, teve uma quebra de 100% e são ainda poucas ou nenhumas as iniciativas para que orçadas se realizem com acesso virtual pelos públicos. O Estado (central e local) e as instituições (na generalidade) aproveitam a desculpa para poupar e também não vejo os agentes culturais unidos e com propostas concretas para dar a volta a isto. É apenas mais um momento para nos queixarmos todos do azar que tivemos e exigir apoios, mesmo que, ao longo de anos, tenhamos ganho todo o nosso rendimento por meios não declarados e não nos tenhamos preocupado em fazer descontos e pagar impostos. Que sirva, tudo isto, também de lição sobre a importância da seriedade fiscal de cada um de nós. 

Está estudado que esta pandemia só se trava com a intensificação do isolamento social e com os cuidados de higiene e saúde que cada um deve ter e redobrar. Esta é, de facto, uma grande oportunidade para a humanidade, enquanto comunidade global, mostrar o seu sentido de coletivo. E não tenho dúvidas que, no caso português, além das medidas preventivas por parte de quem nos governa, quer à escala nacional, quer local, terem sido tomadas antes de isso ter acontecido noutros países, há um sentimento geral de responsabilidade com o tal isolamento social. O teletrabalho está a ser implementado em todos os setores onde é possível e as empresas, das quais nunca precisamos como agora, estão a procurar continuar a produzir para que o país não pare. Estamos a tentar adaptar-nos a esta nova realidade e, no fundo, quero acreditar, estamos a dar o nosso melhor. 

Mas será que estamos mesmo? Esta é uma pergunta que me tem assaltado nos últimos tempos em que somos inevitavelmente inundados, por tudo e por nada, com partilhas nas redes sociais. Talvez só alguns consigam imaginar o que é para uma pessoa como eu, que se educou a andar sempre a mil, a estar em várias frentes e a circular por várias geografias e contextos e, de repente, o melhor que tenho a fazer, como todos nós que podemos trabalhar a partir de casa, é ficar dentro de portas o mais possível. E, em casa, estamos mesmo a dar o nosso melhor? Já percebemos que isto vai durar, pelo menos, até final de maio de 2020 e que não é apenas uma quinzena de férias em que não podemos ir à praia? Já percebemos isso? Já percebemos que, mesmo em casa, em teletrabalho, temos que continuar a produzir e a contribuir para que o país não pare? Acho que não. Acho, honestamente, que a malta está preocupada em difundir toda e qualquer informação, falsa ou real, e em criticar tudo e todos, achando-se dono e senhor da cura da pandemia. Não. Não somos. Haverá vacina, mas não é amanhã. 

Decidi estabelecer regras e cumprir, com elevado sentido de responsabilidade e compromisso individual e coletivo, essas mesmas regras. Neste sentido, todos os dias acordo à mesma hora (sete dias por semana) e começo o dia a praticar exercício físico. Tomo banho e visto-me, igualmente, todos os dias, como se fosse para uma capa da Vogue.

Quando me confrontei com esta situação (que também a mim me cortou 50% do rendimento mensal, uma vez que foram cancelados/adiados os meus projetos pessoais tais como ações de formação, performances, curadorias, entre outros), tomei algumas medidas no sentido de garantir que, no final desta primeira fase pandémica, não havia desperdiçado o meu tempo com lixo televisivo; que não havia habituado o meu corpo a uma rotina preguiçosa; que havia revisto a forma prática como organizo o meu quotidiano, as minhas finanças e as minhas prioridades; que tinha conseguido manter a minha equipa da zet gallery e os demais grupos de trabalho que integro motivados, ocupados e prontos para sermos ainda melhores depois de tudo isto; que não tinha engordado, perdido o prazer de cuidar da minha imagem e, com isso, me tornado numa pessoa com todas as doenças e mais algumas. Decidi estabelecer regras e cumprir, com elevado sentido de responsabilidade e compromisso individual e coletivo, essas mesmas regras. Neste sentido, todos os dias acordo à mesma hora (sete dias por semana) e começo o dia a praticar exercício físico. Tomo banho e visto-me, igualmente, todos os dias, como se fosse para uma capa da Vogue. Privilegio uma alimentação super saudável e sem excessos, planeada nos dias e que não desperdice alimentos, nem me obrigue a estar todos os dias agarrada aos tachos. Eliminei qualquer consumo de álcool, inclusive aquele copo de fim de dia que era prática 2 ou 3 vezes por semana, não como doces (à exceção do mel que por vezes uso no chá para dar aquele reforço imunitário), evito os hidratos, bebo muita água e mantenho uma regra horária, não cedendo a tentações de consumos calóricos nos intervalos. Tenho planeado as compras e privilegiado as entregas online, prevendo a demora, natural, das superfícies comerciais. A minha vida social não me permite, regra geral, o milagroso jejum intermitente mas, neste caso, está em prática. Em casa, o meu escritório-biblioteca tornou-se numa espécie de quartel general de operações. Está ainda mais confortável e felizmente tem luz natural todo o dia, com vista para o Bom Jesus, o que ajuda a não perder o sentido de futuro. Começo a trabalhar todos os dias à mesma hora e vou dando seguimento a uma lista de tarefas que continuo a elencar uma vez por semana, de acordo com as prioridades. Mantive as rotinas com a minha equipa, incluindo os pequenos almoços juntas todas as segundas-feiras (agora com conversa via FaceTime), a partilha mensal de um livro e o consumo cultural comum de um conteúdo. Reunimos à distância as vezes necessárias e temos os chats abertos o mesmo número exagerado de horas que tínhamos antes. Distribuo e verifico tarefas todos os dias e dou ralhetes a quem dormiu mais meia hora. 

Com o cancelamento/adiamento de muitos dos projetos em que estou envolvida para além da zet gallery / dstgroup, considerando que sempre fui muito ativa e desenvolvi uma capacidade de
trabalho acima da do comuns dos mortais, defini que, até ao final de maio de 2020, tenho o doutoramento escrito e pronto a ser enviado para os meus orientadores. Que esta paragem sirva para finalizar um percurso iniciado em fevereiro de 2015, o que contribuirá também para uma melhoria das minhas finanças, dado que as propinas são um peso tremendo no orçamento. O orçamento foi algo em que também comecei a pensar e tomei uma conjunto de iniciativas para reduzir os meus encargos fixos. Quero cumprir com todas as minhas obrigações e não ser obrigada a refugiar-me em nenhum dos apoios que o Estado disponilizou. Para o futuro ficará, seguramente, mais saldo para viagens (depois de o mundo ter inventado a vacina para isto, claro está!). Portanto, o meu dia laboral está organizado em dois momentos: as, pelo menos, oito horas em teletrabalho para a minha incrível entidade patronal e em, pelo menos, mais seis de vida académica. É evidente que, tantas horas no portátil e já lhe saltou a tecla “y” e já não dispenso os óculos. Mas se, no final de tudo isto, todos os males forem esses, está tudo certo. O que não podemos mesmo é parar. Em dois destes sete dias semanais, as oito horas cumprem o que pode ser feito no âmbito dos tais outros projetos e prazeres. 

Não sinto, honestamente, que as escolas estejam a dar o devido apoio aos milhares de alunos que estão sem aulas, nem sinto que os pais estejam a fazer pressão para isso acontecer. Sinto e vejo que malta tem bebido umas garrafas de vinho e que todos os dias aprende a fazer um bolo diferente e não descansa enquanto não o come todo.

Todos os dias, e esta é uma dimensão importante em tempos de isolamento, telefono aos meus. Verifico se estão a cuidar-se e procuro falar de outras coisas e garantir que toda a gente tem rotinas e se mantém ativo. Não sou mais do que ninguém, apenas percebi que se me resignar ao sofá e a enfardar pacotes de bolachas sem parar, terei apenas perdido tempo e terei muitos mais problemas para resolver a montante. E o que sinto, infelizmente, é que a malta está, de facto, a cumprir o isolamento social, mas se tem dedicado a fazer o nenhum, que o teletrabalho é uma miragem e que todas as desculpas são boas para dizermos que mais não podemos fazer. Não sinto, honestamente, que as escolas estejam a dar o devido apoio aos milhares de alunos que estão sem aulas, nem sinto que os pais estejam a fazer pressão para isso acontecer. Sinto e vejo que malta tem bebido umas garrafas de vinho e que todos os dias aprende a fazer um bolo diferente e não descansa enquanto não o come todo. Não sinto que a malta esteja a aproveitar para ler todos os livros que vinha adiando, para aprender um novo idioma online, ou aperfeiçoar um que tenha meio enferrujado e muito menos sinto que, nomeadamente nos serviços públicos e nos outros que servem os problemas das pessoas, o teletrabalho esteja a ser cumprido. A preguiça e as desculpas tomaram conta da ocorrência e é pena. 

A única coisa de que não tenho dúvidas é que os profissionais de saúde estão a dar o litro e que em algumas empresas se está a aproveitar para reinventar negócios e formas de operar. É notável como rapidamente todos percebemos que há opções de venda online em todas as áreas e que os setores afetados, como a restauração, que foram capazes de implementar as entregas ao domicílio, sentiram menos o embate. Também é notável o trabalho sério que muitos órgãos de comunicação social têm feito, incansáveis, como é fantástico uma crise destas separar, em instantes, o trigo do joio na classe política. Os Trumps, os Bolsonaros e os Boris Johnson não conseguiram esconder a sua estupidez e espero que caiam depois de tudo isto. Acredito que o projeto europeu sairá fortalecido desta crise e que os grandes líderes também se afirmarão. Mas é pena, retomando, que não tenhamos todos percebido que este é o momento para sermos o mais produtivos possível e para adquirirmos todos os hábitos saudáveis de que formos capazes. É pena que não tenhamos percebido que se não formos capazes de sair desta melhor do que aquilo que entramos, não merecemos recuperar a Liberdade de que, nesta fase, todos sentimos falta. Por isso, e pela minha parte, darei o exemplo e cumprirei as minhas demandas. Se cumprir as minhas contribuo para o bem comum e, cuidarmos de nós, mantermo-nos saudáveis, física e mentalmente, é o melhor que podemos fazer nas próximas semanas. 

Por fim, todos os dias é clara a lista de pessoas que realmente importam, de quem sinto falta e que quero muito abraçar. A cada dia fica mais limpo e certo o coração e, a cada dia, o amor sem medos e sem muros é tudo o que importa e que continuará a importar. Que o verão nos traga de volta o calor dos afetos mas que a primavera seja mesmo o tempo de, cada um, renascer. 

 

Helena Mendes Pereira
Curadora e escritora

 

 

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