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No Days Off: Os OFFSET Esports

A sala em que nos encontramos é moderna, com uns confortáveis sofás e uma grande mesa de reuniões. Em prateleiras altas conseguimos ver taças, muitas taças. Numa das paredes, a hashtag #NoDaysOFF em destaque. Numa outra sala envidraçada, monitores, ratos, tapetes de topo. Estamos no Training Center dos
OFFSET Esports e aqui não há mesmo dias de folga.

Uma “scene” diferente

“O conceito de eSports é uma forma organizada de competição, individual ou coletiva, de jogos virtuais que pode abranger diversos géneros, desde a vertente de estratégia à fantasia, passando pelos desportos de combate até ao futebol”, refere a Federação Portuguesa de Futebol na sua página de eSports.

Para nos ajudar a compreender melhor esta realidade, fomos recebidos pela equipa dos OFFSET, pertencente à Nobel Actus Lda., empresa responsável por criar a marca em 2017. A partir desse ano, os OFFSET começaram a constituir equipas de videojogos que são jogados de forma competitiva: o primeiro foi o CS (Counter Strike, agora Counter Strike: Global Offensive), logo de seguida o FIFA e, mais recentemente, já em finais de 2019, adicionaram o Grand Turismo.

“Numa primeira fase não tínhamos Training Center, mas entretanto adquirimos este espaço, concebemos este local em que os jogadores podem treinar e jogar. Está equipado com tudo o que é necessário para que possam ter boas condições de trabalho, quer em termos de computadores, quer em termos de ligações à Internet, tanto para jogar como para fazermos reuniões e trabalhar de forma mais consistente e organizada”, explica Luís Arantes, CEO (Chief Executive Officer) dos OFFSET.

O responsável adianta que esta dinâmica foge um pouco do que é habitual neste tipo de desportos. No caso do CS:GO, por exemplo, é mais comum que os jogadores se juntem por iniciativa própria, inscrevendo-se e participando em torneios sem uma entidade que lhes dê suporte. A equipa de CS:GO dos OFFSET é uma equipa profissional, todos os membros se dedicam (quase) a tempo inteiro ao videojogo. “É uma profissão como outra qualquer”, esclarece Luís.

Por serem uma equipa profissional, os OFFSET têm uma rotina muito regrada, não se limitam a aceder a um servidor e a jogar. Treinam muito, elaboram e discutem táticas, definem estratégias. Um psicólogo acompanha a equipa diariamente e a supervisão médica também não é descurada.

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“À semelhança do futebol, no início da época fazemos exames físicos aos jogadores para aferir o estado físico dos mesmos. Também têm consultas de nutrição, damos essas condições. No fundo, é uma equipa completa que os ajuda no dia a dia, de forma a serem obtidos os resultados que são esperados. Temos como objetivo conseguir vencer as competições em que participamos. 2018 e 2019 foram os primeiros anos e achamos que correu bastante bem, mas o nosso objetivo é atingir um patamar ainda mais elevado, mesmo a nível internacional, a nível ibérico e europeu. É esse o trabalho que está a ser feito de forma a preparar a equipa para chegar a esses patamares”, afirma Luís Arantes, sem esconder o orgulho na equipa.

As estruturas dos desportos eletrónicos são muito semelhantes às de outras modalidades: há competições, torneios, transferências de jogadores, contratações e observações. Apesar de a equipa ter sofrido algumas alterações entre a data da nossa entrevista e a data de lançamento desta edição, a verdade é que os OFFSET têm tentado fugir a sucessivas substituições de jogadores. O motivo é simples.

“Tentamos evitar a contratação e substituição sucessiva de jogadores porque só é possível atingir determinados patamares se as equipas estiverem estáveis e os jogadores juntos há algum tempo. Sempre que sai alguém é preciso recomeçar os processos todos. Eles jogam sete mapas competitivos e é sempre necessário consolidar as táticas para esses mapas, o que demora muito tempo. Não se consegue atingir a perfeição ou plenitude em pouco espaço de tempo”, sublinha o CEO.

Os desportos eletrónicos são cada vez mais visíveis e a evolução nos últimos três anos em Portugal foi exponencial. Os jogadores começam a ter apoios de grandes marcas e alguns já jogam em competições internacionais ao nível da que conhecemos como Liga dos Campeões, por exemplo. Estes grandes eventos são realizados em locais como o Altice Arena ou a Exponor, o que resulta numa grande afluência de público, com 50, 60 mil pessoas a assistir in loco, por vezes mais. Também os meios de comunicação estão atentos a esta nova realidade, como é o caso da RTP, que criou um canal específico, a RTP Arena, e que faz a cobertura desses eventos. Há também portais especializados, que todos os dias lançam notícias e novidades sobre os eSports e até a tradicional imprensa escrita tem abordado este fenómeno.

A popularidade destes desportos também abriu caminhos a novas profissões, como é o caso dos streamers e casters, que transmitem e comentam os jogos online (ver glossário).

Preconceitos, mitos e a importância da psicologia

Como tudo o que é recente, os desportos eletrónicos surgem acompanhados de alguns mitos que importa desconstruir.

“Temos os pais ainda com algumas reservas sobre o tempo que eles passam no computador. Tem que ser um trabalho continuado a mostrar que, de facto, tirando as partes mais patológicas de uma participação que exceda as horas que são consideradas normais, tudo o resto deve ser visto como a evolução normal das coisas. Há cinquenta anos tínhamos os pais que acompanhavam os filhos para irem ao futebol, agora temos os eSports e o contexto do gaming. Não adianta estar a tentar travar este fenómeno”, explica Francisco Rodrigues, psicólogo e diretor de Comunicação dos OFFSET. 

Há décadas, também era comum ver os pais com reservas em relação aos filhos que sonhavam com uma carreira futebolística. O processo é exatamente o mesmo, aponta o responsável. Francisco admite que a desconstrução de mitos é um processo longo, mas está já em curso e a verdade é que os desportos eletrónicos trazem – ao contrário do que algumas vezes é veiculado – vários benefícios, mesmo no que diz respeito à socialização, condição essencial a qualquer ser humano.

“A parte da socialização já não precisa de ser tão ao vivo e isso também pode trazer vantagens. Aqui eles usam plataformas para se reunirem online, onde falam e jogam. O contexto da socialização é online, apenas isso. Para nós é um pouco estranho, mas eles dizem que assim conseguem estar a socializar com uma pessoa que está na Noruega, por exemplo. Nós para tomar café com uma pessoa que está a cinco quilómetros às vezes vemo-nos aflitos para marcar uma hora…”, sorri o responsável.

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O acompanhamento psicológico é imprescindível, como, aliás, o é em qualquer outro tipo de desporto, onde existem diversas componentes: técnicas, táticas, físicas e psicológicas. Também nos eSports todas as componentes são levadas em consideração e devem funcionar de forma complementar e multidisciplinar.

“Eles já repararam que estar em boa forma física também os ajuda. O esforço que fazem também acaba por ser bastante físico. Convém que façam exercícios de aquecimento, relaxamento… tudo isso é importante. Todo o transporte que estamos a fazer com a equipa para a parte profissionalizante também passa por lhes mostrar que é preciso alterar hábitos de sono, por exemplo. Também é preciso grande cuidado com a nutrição, pode mesmo ser necessário alterar hábitos alimentares que, bem
estabelecidos, levam a uma maior saúde e rendimento”, explica Francisco.

O psicólogo diz que não é fácil – no caso da equipa de CS:GO – pôr cinco cérebros a pensar da mesma forma ou, pelo menos, a trabalhar em conjunto. É aqui que a Psicologia de Desempenho tem um papel fundamental, tal como acontece em contextos militares ou médicos, em que o trabalho de equipa é crucial.

“Têm de estar bem regulados emocionalmente para depois procurarem um desempenho ótimo. Qualquer pessoa que tem problemas em casa vê o seu trabalho ser afetado. Há uma regulação emocional e tentamos ver o que falta à equipa. As personalidades deles obviamente que interferem no desempenho e são avaliadas, por isso é que também gostamos de conhecê-las bem. Claro que há traços de comportamento que podem interferir negativamente no jogo, mas o facto de terem personalidades diferentes, por si só, não. Devem é encaixar perfeitamente naquilo que é uma equipa. Se uma pessoa é mais ou menos extrovertida, comunicativa, se traz mais ou menos problemas para o trabalho… todas essas coisas são avaliadas e trabalhadas para encaixar com as outras! Não queremos mudar a personalidade deles, queremos é que eles encaixem na equipa e para isso temos de perceber os pontos fortes que podem ser potenciados e os pontos menos fortes que possam estar a influenciar não só o desempenho individual, como o desempenho da equipa”, sublinha.

Francisco elogia ainda os membros dos OFFSET, dizendo que todos eles têm as chamadas skills (ver glossário), o que é possível comprovar pelos resultados que os atletas já apresentavam mesmo antes de pertencerem à equipa, sem uma estrutura que os apoiasse. 

Não há vitórias sem muito trabalho

À volta da mesa e a conversar connosco estão alguns dos atletas dos OFFSET, todos da equipa de CS:GO. Ricardo Matos é Zlynx, capitão da equipa, e está acompanhado de Luís Lousada Zelin, Rui Lima Rizz e Francisco Ramos Obj. Faltam ainda Francisco Fragoso Kst e João Cerdeira Worms, coach (ver glossário) e analista. Nos OFFSET ainda jogam Carlos Salazar Csalazarjulio, piloto de Sim Racing, António Godinho Godiiiinho, jogador de FIFA, e Daniel Alves Dani7Sporting, também jogador de FIFA.

São todos jovens e, enquanto vamos falando com Luís, Francisco e Jorge Martins, responsável pelo Marketing dos OFFSET, notamos a cumplicidade entre os jogadores. Sussurram de forma a não interromper a conversa, riem e tratam-se pelos nicknames. O ambiente é de descontração e nota-se a léguas a amizade que também os une.

Zlynx, o Capitão, explica que, quando começou a jogar, não ganhava nada, antes pelo contrário: as inscrições em torneios e deslocações necessárias davam-lhe cabo do orçamento, o que acabou a comprar-lhe uma pequena “guerra” com a mãe, que não via com bons olhos as horas que o filho passava em frente ao computador a jogar.

“Quando nós começamos, não havia muitas equipas profissionais, isto há dez anos. Nós entramos neste mundo apenas por gostarmos de jogar. Nos primeiros cinco anos não ganhei nada, o início foi muito complicado. No meu caso pus um pouco a escola de lado… A minha mãe não gostava dessa situação. Quando comecei a ganhar, houve uma inversão da mentalidade: já não era um desperdício de tempo, a minha mãe perguntava-me constantemente quando era o próximo torneio. Um apoio total, queria ir assistir e dizia-me que tinha de ganhar! Felizmente essa diferença de mentalidade nota-se cada vez mais cedo com os jogadores mais novos. Na minha família, dantes eram completamente contra, agora são completamente a favor”, explica.

O jogador diz-nos ainda que no seu primeiro contrato ganhava 50€ por mês, um valor claramente insuficiente. Hoje em dia já há mais equipas profissionais em Portugal, mas a situação ainda está longe de se aproximar da de outras equipas internacionais, onde há jogadores a ganhar vinte, trinta mil euros por mês e torneios com vários milhões como prémio. 

O percurso de Obj, de 24 anos, foi um pouco mais fácil porque o “bichinho” do jogo partiu do próprio pai, que antigamente também jogava. Ainda assim, não se livrou de alguns obstáculos. Filho de pais divorciados e a viver com a mãe, durante bastante tempo só conseguiu jogar fim de semana sim, fim de semana não, quando estava em casa do pai.

“Quando chegava ao fim de semana do meu pai, nem dormia só para para matar o vício! Chegou a uma fase em que eu estava na faculdade e num ano em que estava mais parado em termos de jogo ofereceram-me um contrato profissional. Foi uma sorte porque no ano em que ia deixar de jogar por ter a minha mãe a fazer pressão, ofereceram-me um contrato profissional, na altura com uma organização espanhola”, explica.

Hoje em dia a mãe de Obj apoia de tal modo o filho que é costume assistir aos torneios, geralmente acompanhada pelas filhas. Curiosamente, agora é o pai a “não ligar tanto”, mas Obj explica que é uma questão de feitio. O jovem está a viver em Braga, na residência que os OFFSET têm disponível para acolher os atletas. Esta opção permite aos jogadores mais liberdade nas suas horas livres, além de não estarem sempre no mesmo ambiente, o que o psicólogo da equipa aponta como sendo altamente benéfico.

Rizz, com 27 anos, joga desde os 15. Fez uma paragem no jogo quando entrou para a Universidade. Nessa altura decorreu um torneio na sua terra-natal e Rizz foi assistir. O jogador brinca e diz que na altura considerou ser melhor que os vencedores do torneio. Tinha voltado o “bichinho”: comprou um computador, voltou a jogar e poucos meses depois disputava a final de outro torneio com os campeões do anterior. Perdeu, mas passou para a equipa adversária e começou a ganhar competições.

“Sou profissional há um ano e meio, dois anos. Com a família foi difícil, no secundário os meus pais queriam que eu estudasse e fosse para a Universidade, o que acabou por acontecer. Quando voltei a jogar ainda estava na faculdade, mas já estava fora de casa dos meus pais, por isso eles não se importaram muito. E também acabei o curso! Mas também aconteceu o mesmo fenómeno comigo: no início não apoiavam e a minha mãe agora vê todos os meus jogos, até as minhas tias veem. Acho que passamos quase todos por isso”, diz, bem-disposto.

Zelin é a prova viva de que é possível conciliar uma carreira académica com a cadeira de jogador. “É difícil, mas é possível”, assegura. O jovem de 26 anos concluiu o Mestrado Integrado em Engenharia Mecânica e encontra-se a frequentar o 4º ano em Engenharia de Gestão Industrial. Importa dizer que concluiu o 12º já a jogar CS:GO e com uma média de 18,8 valores.

“Com os meus pais foi sempre uma guerra. Eu e a minha mãe sempre aos gritos, sempre a discutir… A minha mãe dizia-me que eu tinha de estudar, eu ia às soluções dos exercícios e copiava tudo. Depois ia atrás do router ligá-lo para voltar a jogar”, explica, rindo. 

Quando terminou o curso, voltou a ser pressionado, com os pais a dizerem-lhe que teria de ir trabalhar. Enveredou pela segunda licenciatura e continuou a jogar. Os pais não queriam que estivesse sem fazer nada, por isso aceitaram esta opção.

“Estou no quarto ano. Eles lá andam contentes e eu continuo a jogar. Mesmo agora, que jogo profissionalmente, as coisas não melhoraram muito. Limitam-se a ignorar. Bom, pelo menos já não há guerra”, explica, sem conter o riso.

Os OFFSET têm os dias preenchidos. Acordam pelas 10h00, 11h00 e dirigem-se ao Training Center. O treino em equipa geralmente começa da parte da tarde: jogam das 14h00 às 20h00 e apenas interrompem este período para lanchar. Discutem táticas e estratégias, mudam planos, jantam e, muitas vezes, retomam os jogos à noite.

“Às vezes temos jogos à noite, por isso temos que conciliar os nossos horários com essas partidas. Da parte da noite geralmente jogamos com amigos, ou fazemos a nossa vida social normal. Treinamos de segunda a sábado e quase nunca tiramos férias. Às vezes conseguimos uns dias em agosto, mas há muitos torneios que são marcados com duas semanas de antecedência, por isso não dá para marcar grandes férias. Estamos sempre em competição, há sempre torneios a acontecer e nós queremos estar lá”, diz Zlynx, com convicção.

O capitão diz mesmo que não há tempo para pausas, sublinhando o mote “No Days Off”. Além disso, no caso do CS:GO, têm mesmo de estar os cinco jogadores em jogo. Como não há suplentes, se um dos atletas falha, a equipa deixa de poder participar em jogos e torneios.

“As pessoas pensam que isto não é trabalho, que é só facilidades, mas não é bem assim. Temos que estar sempre a jogar, temos de treinar constantemente para sermos melhores e nem sempre é fácil, são muitas horas. Não há tempo para pausas. Estamos sempre a pensar no jogo. Dá muito trabalho, sobretudo a nível psicológico e mental”, remata.

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