Opinião

Foi em casa que se descobriu!

Alice é uma miúda esperta e viva, pega na mochila sem demora e na lancheira com as bolachas e o leite com chocolate metido à pressa pela pressa da mãe. Voltaram à rotina no fim do verão mais longo que teve, o mais quente e salgado na memória do seu corpo. Para trás deixa os dias sem horas, sem despertador e sem recolher obrigatório.
Bebe o leite de um trago só e já tem saudades das manhãs em que despertava devagarinho, com o cheirinho do café e do pão acabado de sair do forno. Sabe que a mãe andava nervosa, queixava-se do trabalho, da escola que agora tinha de ser em casa e do peso que era gerir tudo. 

Alice, quando olhava para ela, sentia-lhe nos gestos o nervoso miudinho e ansiedade de quem não sabe como vai correr o dia. Espalhava-lhe a manteiga no pão e sentava-se junto dela e ainda de pijama falavam um pouco para queimar o tempo que demoravam a mastigar. 

Tinha aulas em casa e trabalhos para fazer, mas ainda assim com tempo para ser feliz. Andou nesta liberdade, por casa, uns três meses antes de voltar ao normal, aos recreios marcados, às manhãs a correr, à mãe mais alheada. Sentiu-lhe um estranho alívio pelo regresso à rotina, mas Alice já se habituava a ter a família a tempo inteiro. Gostava dos dias em que o trabalho e a escola surgiam sem obrigação, das brincadeiras sem hora marcada no recreio do seu quarto, na cozinha feita cantina e na mesa da sala que era por hora a sua escola. 

Aprendeu mais nestes meses, a Alice, que era uma miúda esperta, mas a quem professor algum lhe poderia ensinar o tanto que descobriu por si. Descobriu que observando como se faz podemos fazer melhor, que a mãe será sempre a melhor professora que alguma vez terá, mesmo que não tenha ritmo, nem tenha jeito para o desenho, desenhou-lhe na vida a imagem mais bonita e que levará consigo para sempre na mochila. Que as famílias não se constroem em part-time e com horários marcados, que é nas dificuldades que se conhecem as pessoas e que as pessoas são capazes de muito mais.
Aprendeu que não existem limites para a imaginação e que mesmo em casa pode ainda assim conhecer o mundo. Que as pessoas são feitas de lágrimas, de força e, ao mesmo tempo, de fragilidade, que estar longe pode ser um ato de amor e que por amor nos fechamos em casa. Que a coragem tem corpo de mulher, de homem e por vezes veste avental, ou bata branca. Que o medo atordoa mas não vence quem luta.
Voltou à escola. “Vencemos”, disse-lhe a mãe. Existe uma vacina para o vírus que trancou a humanidade em casa, mas Alice foi em casa que se descobriu humana. 

Sofia Franco
www.notjust4mums.wordpress.com
@notjust4mums

 

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