Conto

Capítulo XVIII: Encontrei-te

Parte II

– Incrível!
– Soubéssemos todos a importância de amar dessa forma!
– Não são palavras, é a libertação da emoção!
– Não aguento com tanto amor!
– Que coração!
– Que bonito!
– Acabei de conhecer o verdadeiro significado da magia do amor!

O sossego das palmas e de um momento de livre despejar de frases cobertas de confetti e joaninhas voadoras viraram serenidade, mas aquele momento pareceu durar uma eternidade. Várias perguntas foram proferidas, às quais Camila respondeu com todo o tempo e respeito. Porém, aquando do erguer de (quase) toda a gente dos seus assentos para a fase da sessão de autógrafos, em direção à mesa de apresentação, onde ainda se mantinham sentadas Camila, a agente literária e o representante da editora… uma pergunta ainda tinha de ser feita. Aquela foi a que silenciou, em forma de canção de amor, todos os espaços remanescentes por ali. 

– A Camila diz que este livro, “Procuro-te!”, é inspirado, de alguma forma, num momento da sua vida. 

– Não consigo ver quem está a falar, por favor… – Um soluço surgiu antes sequer de a frase terminar… Como se o rosto congelasse e as emoções ficassem embevecidas e abraçadas àquele pulsar de mil e uma coisas… Não lhe foi possível sequer a oportunidade de reagir. 

Ai!, como hei de conseguir escrever esta aparição do mundo dos deuses sem conseguir sentir uma explosão de cor dentro de mim? Eu só escrevo, mas tudo isto também me move para a realidade. Aquele espaço onde só se cruza cor e amor, jardim e flor, melodia e canção, versos e poemas.  Que beleza interminável na voz que Gonçalo fazia surgir naquelas palavras. 

E continuou…:

– Nós não conseguimos evitar escrever ou expressar palavras fora daquilo que somos. O livro saiu e tive uma imediata curiosidade em ler, pois tudo nele transparecia verdade e, quando lhe toquei e pude sentir o seu papel e cheiro, que não é diferente de nenhum outro… bem, achava eu… foi como se uma vibração de energias vindas de dentro dele me atropelasse o corpo e eu ficasse à deriva. Talvez por isto considere que tudo nele abala a veracidade, não há uma incógnita, não há um vazio, não há questões que se demorem sem respostas e que obriguem a um caminho inconclusivo. Dentro deste livro, viajamos e sonhamos, e o melhor de tudo é que acreditamos no que ele diz… Eu, pelo menos, senti-me embrenhado num arco-íris de palavras reais. E é que depois não conseguimos dizer menos do que coisas bonitas quando é dele que falamos. Ficamos a perceber a sua magia e falamos como ele nos faz sentir e envolver o coração. Mesmo que não seja totalmente ele que se expresse, pois o mundo dentro dele é muito mais do que aquilo que ele só pensa dizer. É tudo tão subtil, mas com uma força de expressão que nos faz pensar: “só pode ser uma história de amor verdadeira”. E, acreditando com tudo aquilo que me faz ser humano, gostava de saber se este “Procuro-te”, de alguma forma, já foi encontrado?

Uma pergunta que deixou o público curioso demais, pois cada palavra, cada emoção sentida nas letras que envolviam as frases, foi como se lhe saísse do coração, e como não despertar o sentimento? 

O público ficou concentrado em Gonçalo e, mal ele terminou de fazer a pergunta, virou-se inquieto e a suster a respiração, e, como se tudo fosse ensaiado, ao mesmo tempo, retornaram a posição para Camila, pois tal era o despertar instalado em saber que resposta ela iria oferecer. Camila nem quis acreditar que era Gonçalo diante dela, mais uma vez, mas agora com uma pergunta que tinha de ser respondida e não havia como escapar dela. Uma pergunta que a deixava com alguma vontade de fugir… Mas estavam ali mais de cem pessoas à espera de uma resposta. Camila ficou suspensa no ar, não sabemos quantos minutos se demoraram por ali. Estaria a sonhar?! Estaria aquilo a ser mesmo real?! Acorda, Camila! Engoliu a seco e começou:

– As estações do ano são quatro, mas há uma em particular que me faz sentir mais triste, porém, e ainda assim, ela não deixa de ser a minha estação preferida. É o Outono… O Outono vai perdendo as folhas no seu tempo, e isso faz-me lembrar as pessoas que já partiram e não têm volta. Iniciei este livro no Outono, e, aquando dessa escrita, parecia que havia um medo injustificado a morar dentro de mim, ao mesmo tempo que alguma luz do sol se fazia invadir para o meu interior. Estava sempre a pensar se este “procuro-te” – que acaba por existir um bocadinho dentro de todos nós… pelo menos, enquanto há espaço dentro do nosso coração e não encontramos ainda a pessoa que nos vai fazer entender porque nunca resultou antes… -,  dentro daquela estação, me pudesse roubar a pessoa que eu procurava… mas não. O Outono não levou a minha pessoa, pois, entretanto, a Primavera chegou e eu pude encontrar novamente a pessoa que, para mim, é o resumo deste “procuro-te”. 

O público sorria, incrédulo, e algumas pessoas até usaram lenços de papel, tal era a emoção que se estendeu por ali. 

Bem, julgo que não há dúvidas sobre o que a Camila sente por Gonçalo, eu não acredito que as haja, pois é demasiado evidente este amor. É como se todas as ruas falassem dele. É como se nada fosse ausente deste amor e da presença que ele instala. Camila tornava o mundo mais bonito com este amor por Gonçalo. Contudo, eu acho que nos podemos questionar. Sim. Podemos. OK. Podemos. E podemos porque “isto” é tudo demasiado romântico para o mundo de hoje. Não é isso? Talvez, por isso, tenhas as tuas dúvidas. Sim, talvez por isso. Mas não se pode duvidar daquilo que não está em nós por não sentirmos o amor… O amor é uma força que não cabe na terra, não há lugar no espaço para o amor, daí tantos perderem o amor para a próxima viagem. 

– Não sei se isto responde à pergunta, mas eu já encontrei o meu “procuro-te”.

Gonçalo agradeceu, mas ninguém para além deles sabia o significado de tudo aquilo que acabara de acontecer. Para muitos era mais uma questão colocada e curiosa, para eles, uma questão que mudou o palpitar dos seus corações. 

“Esta reciprocidade dá cabo de mim!”. Ainda há mais, borboleta, acalma esse coração. 

Tudo acelerou naquele instante em que ambos se lembraram deles. Tudo mudou. 

O evento terminou e Camila sentia-se orgulhosa do seu trabalho, bem como do que tinha acabado de suceder. Eis então que era hora de regressar a casa, mas… 

– Camila? – Os seus olhos mudaram de cor e o seu coração foi sentido em todas as partes do seu corpo.
– Gonçalo! – verbalizou com todo o amor envolvido naquela simples palavra.
– Eu acho que está na altura de tentarmos – expressou Gonçalo, com uma voz querida e a passar a mão com um toque tão borboleta pelo rosto de Camila, que só não morremos de emoção ao ver isto se estivermos mortos por dentro.
– Eu acho que está na altura de tentarmos – Finalmente, Camila a ouvir-se em tudo aquilo que o seu coração já fazia explodir há imenso tempo dentro de si. Finalmente, aquela magia deu lugar a todos os contos de fadas mais bonitos e perfeitos do mundo. 

Não se beijaram ali, mas um terramoto de beleza aconteceu… Beijaram-se e tocaram-se e reinventaram-se a poucos instantes dali. Fizeram uma pandemia colossal no interior dos seus corpos e os lençóis ganharam vida e as paredes respiraram pela primeira vez. Foi tudo tão intenso que tudo acalmou para ouvir a voz e sentir as vibrações da junção daquele imenso amor.     

O amor pode acontecer e ser dito de imensas formas. O “Mais de 365 dia de amor por ti” terminou aqui, mas ele continua por mais de 365 dias e continuará por mais e mais e muito para além de mais de 365 dias. 

O amor nunca se esgota, e o amor de Camila & Gonçalo não é perfeito, mas reinventa-se e testa-se todos os dias mais um bocadinho. O amor deles abala, mas é ancorado. O amor deles não é um poema inacabado. E amor que é amor não diz “adeus”, diz “até logo”, diz “preparei a tua refeição preferida”, diz “amo-te” com tinta permanente, diz tudo aquilo que achas ser impossível e torna-se possível. O amor não se isola, ele explode em todos os cantos e deixa marca para sempre. E “para sempre” será sempre pouco tempo para quem ama, para quem dá oportunidade de entrar e fechar a porta, para quem fica ao fim de semana, mas está a semana toda. Entendes?! O amor é amor. E eles… Eles são além do amor e já formaram a sua constelação. 

Para sempre, Camila & Gonçalo. 

“Aleluia, a este mega amor!” 

Ah, pensei que não ias finalizar esta história, borboleta. Encontramo-nos por aí, inseridas em mais uma história de amor, tão ou mais bonita quanto esta. Será possível?! 

(Leia aqui a primeira parte do capítulo final)

 

Juliana Gomes, escritora
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