Opinião

Carta de Despedida

Vim escrever-te para o mesmo local onde, naquele um dia depois dos sinos, a tua morte começou a mudar tudo em mim. Devia ter-te chorado inteira, devia ter sido capaz, mas não fui. Chorei a pena de quem era, daquela mulher que camuflava todas as emoções e seguia no caminho com o foco de todos os dias na missão que entendi ser, apenas e só, razão da existência. Não carpi a tua partida e ergui um muro de vergonha que me fez incapaz de ver a filha que nos deixaste, de olhar os teus de frente e dizer-lhes que também eu estava a sofrer, não a tua partida, mas a saudade de tudo o que não fomos capazes de somar ao tanto que vivemos juntas. Seres humanos como tu deviam estar vedados aos 22 meses de terror a que a doença te obrigou, seres humanos como tu deviam poder criar os filhos, ouvi-los dizer as primeiras palavras, deixar as fraldas, levar ao primeiro dia de escola, dar o empurrão final no dia em que aprendem a andar na bicicleta sem rodinhas. Não quis Deus que fosse assim e, sobretudo, não quiseste tu que a tua vida fosse uma rotina hospitalar podre, da mesma forma que a tua generosidade nunca te permitiria ver o sacrifício e a suspensão de vida dos que amas. Quando se é bom um dia, é-se bom até ao fim e tu foste a melhor de nós. 

Meses depois ainda tentei traçar a minha capa preta e ouvir o nosso fado a ecoar nas ruas do nosso Porto, de abrigo e de estórias. Mas aquela já não era a nossa música e aquela capa, sem ti ao meu lado de lágrimas a escorrer, era apenas pano gasto que viveu a cidade e a noite como se não houvesse manhã. Nada separa o que se uniu no suor ao som do tilintar de uma guitarra. Nada. E mesmo que a morte venha, que o desamor reine, há o todo sentido que fica em nós, nos molda e planta aquela eternidade em nós. 

O que não se chora, não se enfrenta, e eu guardei, cá dentro, toda a água que não escorreu dos meus olhos por te perder. Mas há no universo energias e sinergias que não explicamos e a tua luz caiu sobre mim e, no dia depois daquele depois dos sinos, deixei que me inundassem as perguntas e fiz das palavras a minha expressão. Ouvi o meu coração e deixei que um certo amor fosse verbo e fosse vontade assumida sem vergonha. Perguntar-te-ás, agora, se correu bem e se fui feliz? Fui e sou e só doeu porque acabou e se esclareceu, mas não porque não se viveu. Entreguei-me como nunca, fui a louca e a desnuda. Iludi-me, desiludi-me. Fui, dei, sonhei, quase endoideci. Não deixei nada por dizer, revelei todo o meu querer. Não tive medo, tive fome, fui. De nada me arrependo e se deixei que caíssem os muros em meu redor, ainda que tudo agora seja dor, foi pelo dia que não te chorei, não te carpi, não morri por ti. Contudo, há uma parte de mim que morreu contigo e que renasceu para te cumprir. Obrigada. Se nos foste, se te partiste, se me morreste, sei que o que deixaste faz com que continuar não seja em vão. 

Tenho que pedir-te desculpa por tudo o que não fui capaz. Por não ter cumprido a tua delegada missão. É uma ausência de 15 meses que não se colmata com presente, mas apenas com futuro. Então lá fui e vi a tua menina, colhi um abraço e um sorriso. Não herdou os teus traços, mas os do pai, mas tem um jeito de olhar, de baixo para cima com aprovação/reprovação que me lembra a tua sensatez, a tua decisão. Sorri como tu e é dona da tua vaidade. Sei que um dia faremos compras juntas, como as muitas que fazíamos nós e ninguém compreendia, porque poucos compreendem que há em gostarmos de nós a mestria da força dos dias.  Quando a visitei levei-lhe um exemplar da minha tese de Doutoramento que terminei estes dias. É-te dedicada porque foi contigo que morri e renasci, que fechei um tempo e floresci na luz dos dias bonitos do coração, da paz e desta minha inquietação, combustível de ser feliz.

Não importa se os amores não nos amam, não importa se não nos chega tudo no tempo que nos parece merecermos. Interessa viver o tempo e o espaço em convulsão, na eternidade dos abraços que não mais quero adiar. Nesta nova Mulher que sou eu, não habita a culpa e não há nada que eu não mereça. Há as escolhas que nos afagam, as perguntas e as respostas do caminho, o tudo e o nada que somos. Hoje, minha amiga, sei que te deixaste partir e te negaste à ilusão de uma cura de sofreguidão porque nada mais foste senão verdade, senão gargalhada, senão compaixão. Não é como eu que tem que ser a tua menina, mas exatamente como tu. Eu sou só paixão, força e determinação. Sou tempestade, verdade sem razão. Tu és Amor e o amor é sempre tudo o que importa. No dia em que me morreste, em que comecei a saber que nos irias, tatuei a minha libelinha, a minha transformação. Não sei se alma-gémea, mas sei que revolução. Tatuei o cavalo e a força e encerrei o triângulo do corpo na Liberdade que sou. O mundo girou e eu, que não sou a mesma, também não sou outra. Sou uma Helena que, sem ti, quis ser melhor e não mais temer sentir, morrer e nascer, ser coração. Na saudade que agora deixo que me afogue, sei que me morreste para me fazer viver, que deixaste algo de ti em mim. Não há desculpas nem há credos. Há futuro e muitos amanhãs. Estou aqui. Estarei sempre aqui para quem sou amor. Não há dor que me demova de o ser. Não sou capaz de promessas, mas serei coração e sempre que ele se quiser contigo, terei os teus em abraços de braços como os teus. Fazes-me falta, mas sei, hoje, que a Liberdade foi, também, a tua intuição.

Estaremos para sempre juntas nesse encontro, nessa devoção, nessa ânsia de libertação. 

Helena Mendes Pereira
Curadora / Escritora

 

 

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