Miúda de um Planeta diferente

Pálpebras Molhadas

O vento dançava sobre a luz e havia pássaros no céu, mas a terra dentro dela já não se ouvia cantar, como se cada palavra exata não construísse um significado, como se houvesse um adeus ininterrupto. Era a casca do tempo, morreu abrindo as lágrimas ao mundo onde um pequeno raio de sol não entrava mais no âmago do corpo e da alma que a brisa inclinava, próxima e madura, em si. As árvores já não continham folhas e faltava a ressonância de um sorriso completo. Era hora de adormecer descalça sobre o sofá, afogar a luz da lua que a noite penteava sobre a roupa de um dia inteiro e reduzir o medo levantando a alma à sua respiração. Um grito de desespero acordou a cidade, mas nada iluminava as coisas simples. A flor ansiosa e desperta do orvalho já não era a designação de um sentimento de beleza, e nas ruas sentia-se a nostalgia repousar nos olhos as lágrimas de espigas.

Um corpo deitado e horizontal, isento de peso e crueldade, respirava a sua dor e aguardava a chegada de um relâmpago. Não era frio, não era solidão, era desencanto. A noite era desvelada, não continha música, e cada coisa soluçava dentro dela – “A flor é pedra e o corpo já não tem alma!” – ouvia-se repetidamente no seu silêncio intenso e secreto. A noite tornou-se transparente e sincera, abraçou-a numa sombra de mar e brancura, deu-lhe poesia e cor de folhagem, deu-lhe amor e luz da lua. À procura de um jardim de flores carregadas de um tropeço de luz, o dia iniciou-se dentro de uma pergunta – “O que posso fazer para merecer mais?”- A pergunta não teve resposta, ficou a demorar-se no silêncio sobre as horas transtornadas. Levantou-se do sofá manhoso que lhe carregara o corpo sem alma na noite anterior e desceu as escadas para ir à caixa de correio. Pousou a mão no corrimão, não sentira o toque gélido como se o frio não queimasse, e sem um esboço de uma arte contemporânea, abrira com a chave minúscula a caixa de correio. Uma ave pousou no seu ramo outrora pétala de flor. 

De repente vi o mar
Vi-te ao longe, mas foi de perto que te soube amar
Não sei dizer o que despertas
Sei que és fluir e acordar
Luz azul no céu a repousar
Reconheço-te a ternura
Mesmo sem saber o teu nome
És claridade que resiste
E eu morro
Para que tudo em ti
Viva 

 

Juliana Gomes, escritora
E-mail:
escritorajulianagomes@gmail.com
Instagram: @juli_ana_juli

 

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