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Mãe Natureza: Sustentabilidade do Coração

Marta Machado tem 38 anos e é Engenheira Biológica. Ou era. Recuemos: até 2018 trabalhava em Segurança e Qualidade do Ambiente numa empresa de Gestão de Resíduos no Porto. Um emprego estável, na sua área de formação, com um bom ordenado. Tudo estava bem, mas faltava qualquer coisa: a felicidade.

“Faltava-me toda a parte emocional, faltava-me tranquilidade. Cheguei a uma certa altura e percebi que não era aquilo que queria fazer para toda a vida! Eu e o meu marido pensamos muito, pesamos tudo e tomei a decisão de me despedir”, explica.

Marta também é mãe de Manuel, de 6 anos, e Mafalda, de um. Enquanto estava de licença de maternidade decidiu criar o blogue “Mãe Natureza”. Sempre tinha gostado de escrever e as publicações, além de “terapêuticas”, serviam para ajudar quem se interessava pelo seu estilo de vida simples e o mais amigo do ambiente possível.

“Percebia que havia muita curiosidade por parte das pessoas em saber como é que eu fazia determinadas coisas, sobretudo sendo mãe de duas crianças. Comecei a cansar-me de dar sempre as receitas e comecei a escrevê–las e a partilhar. Quando me perguntavam alguma coisa e já estava cansada de responder, em última instância dizia para irem ver ao blogue”, brinca, sem conter o riso.

A Engenheira Biológica tem uma gargalhada contagiante, que pauta grande parte da nossa conversa. E sorri, sorri muito. São os efeitos de uma vida mais tranquila e menos apressada, como explica. Com mais saúde, mais amor e mais tempo “para aquilo que é realmente importante”.

O que começou por uma “brincadeira” depressa evoluiu para algo mais sério. A ideia do blogue era passar uma mensagem de sustentabilidade de forma simples, sem extremismos. Marta começou a ter cada vez mais seguidores interessados em adotar um estilo de vida mais minimalista e menos consumista. Ainda hoje acredita que o segredo não está nas mudanças radicais mas sim nas pequenas boas práticas.

Comecei a escolher roupa feita com materiais orgânicos e a procurar brinquedos que não estivessem “atulhados de polyester ou acrílicos”

“Há pequenas coisas que podemos começar a fazer em casa! Sem fundamentalismos, sem querer mudar o mundo de um dia para o outro… não! Falo de coisas que podemos fazer sem grande dano ou alteração no nosso dia a dia e que beneficiam o ambiente, mas acima de tudo a nossa saúde, o tempo para nós, a nossa felicidade!”, sublinha.

Sabonetes artesanais de azeite. Iogurtes feitos em casa. Papas de aveia para o pequeno-almoço. Tudo pequenos exemplos de coisas que Marta faz e que despertavam a curiosidade nas pessoas, sobretudo quando lhes mostrava que não exigem mais tempo ou maior investimento financeiro. A par das dicas que dava, começou a ser questionada sobre as lojas onde adquiria produtos como o champô sólido para o cabelo, escovas de dentes de bambu ou palhinhas reutilizáveis. A certa altura, deu-se o “clique”: e se, em vez de andar sempre a explicar o mesmo, se tornasse ela própria vendedora desses produtos? Daí até à fundação da eco-loja online Mãe Natureza foi um passo. Começou devagarinho e a medo, com “meia dúzia” de produtos, mas com a crescente procura, a oferta foi aumentando. Neste momento é possível encontrar na loja artigos tão diversos como amplificadores naturais para telemóveis – os artesãos que os produzem são pessoas com incapacidades físicas que pertencem a uma organização sem fins lucrativos –, cápsulas de café feitas a partir de bioplástico, absorventes vegetais, garrafas e palhinhas reutilizáveis, nozes de japonária, ou perfumes sem químicos, entre muitos outros.

Precisamos de recuar ainda mais no tempo para explicar a história de Marta. O filho Manuel teve um surto de dermatite atópica muito severo quando tinha apenas cinco meses. Os olhos da mãe ficam em lágrimas quando lembra um bebé com a pele em ferida em todas as “dobrinhas e refegos”. Correram dermatologistas e alergologistas em Braga e no Porto à procura das melhores e mais eficazes soluções. Alguns dos medicamentos existentes nem podiam ser utilizados pelo facto de se tratar de um bebé tão pequenino. De cada vez que lia os componentes de outros remédios, deitava as mãos à cabeça. Marta virou livros e a internet do avesso à procura de soluções naturais. Com mais informação, começou a fazer novas alterações na rotina familiar. Pôs de lado o detergente da roupa, optando pelas nozes de japonária, que “duram uma eternidade”. Começou a escolher roupa feita com materiais orgânicos e a procurar brinquedos que não estivessem “atulhados de polyester ou acrílicos”, uma lacuna que ainda considera existir. Controlada a dermatite, Marta e o marido apanham novo susto. A primeira vez que Manuel come uma papa acaba no hospital: intolerância à proteína do leite de vaca. Entretanto já solucionada, na altura obrigou os pais a ler tudo o que era rótulo para garantir que o bebé não tinha outra crise.

“Tudo tem proteína do leite de vaca! Até a pomada que pomos na boquinha dos bebés para aliviar o aparecimento da dentição! Isso fez-me começar a fazer as coisas todas em casa. Se não podia comprar pão na rua – porque o pão tem sempre leite – fazia em casa. Comecei a fazer isso com quase tudo: pão, bolachas, iogurte”, diz.

Na altura ainda não sabia, mas estavam dados os primeiros passos para a criação do blogue. Começou a perceber que ganhava em saúde e tempo. Ao mesmo tempo, em casa entravam cada vez menos embalagens.

“Temos de ver que é muito pouco o plástico que é reciclado. Para que havemos de comprar tudo em plástico, embalado em plástico e embalado outra vez em ainda mais plástico? Não tenho nada contra o plástico, apenas contra o seu uso banalizado. O primeiro plástico produzido no planeta ainda cá existe, é incrível! E os microplásticos estão em todo o lado… Estão no mar, onde o peixinho os come, nós depois comemos o peixinho…”, suspira.

Parar para pensar. É isso que Marta acha necessário fazermos. Reconhece que muitas vezes as pessoas não fazem determinadas coisas, não por não quererem saber, mas sim por não haver informação suficiente, por não saberem. Outra das causas é a vida agitada do dia a dia, que não permite às pessoas pararem para pensar nas consequências dos seus atos. 

“O que estou a dizer não se aplica só ao plástico. Vejamos a roupa: se calhar, se comprarmos uma melhor, dura-nos uns anos, mas somos capazes de ir a uma loja e trazer três ou quatro peças de roupa só porque custam dois euros. E se nos pusermos a pensar… como é que custam dois euros?! Estamos a falar de produção de algodão, provavelmente feita do outro lado do mundo, possivelmente por pessoas com a idade dos nossos filhos, mais o transporte até chegar cá… Como é que custa dois euros? Alguma coisa aqui não está bem”, frisa.

 

Marta diz que reciclar já não chega. É preciso recusar, repensar. Sublinha que temos um papel muito mais importante do que pensamos numa sociedade de consumo como esta. “Se continuamos a comprar, obviamente vai haver sempre mais oferta!”. Na questão da roupa, para além de todas as consequências ambientais e sociais, aponta o impacto emocional de que muitas vezes não nos apercebemos. Um armário cheio cria-nos mais stress na altura de escolher a roupa e quando decidimos doá-la temos, necessariamente, de perder tempo a separá–la e distribui-la. As pressas e a falta de tempo para a família foram o que mais pesou na altura de Marta tomar uma decisão. Gostava muito do trabalho, mas não era feliz.

“Desde Janeiro que estou dedicada ao Mãe Natureza a tempo inteiro. É óptimo, uma sensação de bem estar imensa. Foi um passo atrás para dar dois em frente! Esta tranquilidade não tem preço… E se entretanto conseguir passar a minha mensagem de sustentabilidade, tanto melhor”, sorri.

Para além da loja e do blogue, Marta vai participando em feiras e fazendo diversos workshops, o último sobre consumo responsável. São muitos os projetos na manga, mas são para saborear sem  grandes pressas. A mensagem é sempre a mesma: parar para pensar, fazer pequenas mudanças. Marta acredita que quem muda, dificilmente volta atrás. A família Machado já se rendeu completamente às mudanças da Mãe Natureza: os filhos brincam descontraidamente em jardins, com a terra, com folhas e areia. 

É com humildade que Marta diz não fazer “nada de especial”. As atitudes já saem naturalmente, sem esforço ou sacrifício.

“Esta é a nossa casa grande, não há outro planeta para onde irmos se isto correr mal… temos que cuidar dela. Sem fundamentalismos, mas temos de parar para pensar perante as coisas. Faz sentido? É preciso? Precisamos disto tudo?”, questiona.

 

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