Passear

A busca pela normalização do uso da bicicleta

“Não queremos acabar com os carros, mas que as pessoas também possam ter uma bicicleta e sentir-se bem e em segurança”, revelam os fundadores Mário Meireles e Victor Domingos. Numa entrevista à revista Minha, os jovens, ambos utilizadores assíduos da bicicleta no seu dia a dia, explicaram os motivos por detrás deste projeto que surgiu de uma forma espontânea. “Nesse ano aconteceram várias coisas em simultâneo. Houve várias movimentações de cidadãos, havia pessoas que faziam massa crítica, encontros de bicicleta de cariz reivindicativo que pretendiam chamar a atenção para a falta de condições de segurança. Tudo isto acabou por confluir em torno da «Braga Ciclável», que era algo informal”, referem.

Daqui até  à criação do blogue Braga Ciclável foi um pequeno passo que permitiu juntar ainda mais utilizadores das bicicletas e, consequentemente, criar iniciativas e projetos. Um deles, apresentado em 2013, foi a proposta para uma mobilidade sustentável, um dossiê com um conjunto de medidas concretas para a cidade que foi entregue ao executivo da altura, bem como às restantes forças políticas.

Neste documento ficaram expressas duas medidas consideradas “fundamentais e urgentes”, entre elas um estacionamento de qualidade através da instalação de bicicletários e um eixo ciclável que ligasse a estação de caminhos de ferro, o centro histórico e o campus de Gualtar da Universidade do Minho.

Apesar de reconhecerem que têm sido introduzidas algumas melhorias ao nível do estacionamento, os responsáveis consideram que ainda há muito a fazer para que seja possível circular de bicicleta em Braga em segurança, o que ainda afasta muitas pessoas pessoas para este meio de transporte que proporciona “melhor qualidade de vida” para todos.

De bicicleta há o risco real de não se chegar inteiro ao destino. Há o risco de atropelamento caso um ciclista caia e o carro não mantenha a margem de segurança mínima. É disto que as pessoas têm medo. Por isso é que a infraestrutura é a primeira parte onde se pode e deve intervir.

“Passados estes anos todos continuamos à espera deste eixo ciclável. Continuamos a ter interrupções, a ter de fazer desvios enormes pelo meio de um trânsito que não está bem gerido na razão com a bicicleta e os estacionamentos continuam a ser manifestamente insuficientes para a procura que existe”, lamenta Victor, vincando que não se trata de uma luta contra ninguém, mas sim a favor de uma causa.

Para Mário e Victor, é precisamente esta ausência de condições para a prática da bicicleta que não permite que ainda mais pessoas a utilizem como meio de transporte diário, sobretudo em pequenas deslocações, num raio de cinco quilómetros, melhorando assim a qualidade de vida dos cidadãos.

“Notamos que há imensa procura e o próprio conceito de cidade moderna está a mudar. Hoje começamo-nos a aperceber da qualidade de vida que perdemos em cinco, seis décadas, nomeadamente o facto de sermos obrigados a respirar este ar ou a ouvir o barulho que ouvimos. E depois o poder sair à sua descansado, mesmo a pé. Percebemos hoje que os nossos filhos não têm onde brincar ao ar livre porque a rua é um perigo. E depois temos pessoas que até gostavam de deixar o carro em casa mas que, ao virem trabalhar ou fazer compras no centro, não têm onde deixar ficar a bicicleta perto. E não podemos achar que um estacionamento a 200 ou 300 metros serve. Há recomendações de boas práticas a nível internacional que devem ser seguidas e não podemos pensar na bicicleta como se fosse um carro ou um brinquedo. Tem características próprias”, refere Victor Domingos.

E que características próprias são essas? Desde logo, o benefício que proporciona ao utilizador, tanto em termos de saúde como económicos. Por outro lado, a contribuição para a cidade, começando pela redução do desgaste das vias – uma das maiores despesas a nível autárquico –, e da ocupação do espaço público, já que “onde cabe um automóvel cabem dez bicicletas”. A isto juntam-se outras vantagens mais óbvias, relacionadas com o meio ambiente e com a segurança dos peões.

O que falta, então, fazer em termos concretos? Sublinhando que “há, sobretudo, uma falta de estratégia de mobilidade por parte do município”, os responsáveis reclamam uma estratégia global walking and cycling, que envolva peões e ciclistas, e não medidas avulsas sem qualquer conexão entre si, como entendem que tem acontecido até à data.

Uma rede ciclável na qual as pessoas se sintam seguras, desde a estação de caminhos de ferro até à Universidade do Minho, é uma das reivindicações. Pelo caminho teriam de ser solucionados os constrangimentos existentes, por exemplo, na Rua
D. Pedro V e no atravessamento da Avenida Padre Júlio Fragata. “Enquanto que, na ponte, às vezes é difícil passar com a bicicleta, na rotunda das piscinas podemos não chegar ao outro lado. E se pensarmos no sentido Universidade do Minho – Centro, ainda pior”, refere Mário, apontando a semaforização daquela zona como uma das possíveis soluções para aquela zona da cidade.

Ao lado, Victor acena com a cabeça dando ar da sua concordância. “Podia haver semáforos inteligentes que fechassem para o trânsito quando houvesse trânsito noutra via. Poderia ser automatizado”, explica.

Mário lembra que “a Avenida Padre Júlio Fragata não é uma circular à cidade”, já que esta se estende até Lamaçães e Gualtar. O prolongamento do tunel já existente também não é visto com bons olhos, sobretudo numa zona onde “um prédio teve já de levar reforço de betão por estar em cima de águas”.

Acima de tudo, é urgente “converter toda aquela avenida desde as Sete Fontes até ao Minho Center” num espaço “onde as pessoas estejam bem, em segurança, e as velocidades não sejam exageradas”, permitindo o seu usufruto por todos, inclusivamente crianças. “Não podemos ter uma via com perfil de autoestrada ou perto disso a atravessar uma das zonas mais habitadas da cidade. Mesmo os limites de velocidade que lá existem, e raramente são respeitados, são altos”, sustenta Victor, lamentando que Braga seja uma cidade que privilegia o uso do automóvel e onde há “um medo instalado” de andar de bicicleta por falta de condições.

Bicicletas e carros podem ser equiparados?

A equiparação da bicicleta aos veículos a motor é uma questão que tem estado na ordem do dia e à qual os entrevistados não são alheios, considerando mesmo que não há qualquer equiparação possível por vários motivos, passando pelo perigo que constituem e acabado na vulnerabilidade a que estão expostos os seus condutores. “Há décadas que temos uma discriminação fortemente negativa relativa ao uso da bicicleta”, diz Mário Meireles, comparando aqui o risco de se andar de um ou de outro meio de transporte. “De bicicleta há o risco real de não se chegar inteiro ao destino. Há o risco de atropelamento caso um ciclista caia e o carro não mantenha a margem de segurança mínima. É disto que as pessoas têm medo. Por isso é que a infraestrutura é a primeira parte onde se pode e deve intervir”, vinca, considerando que, a partir daí, começa a haver uma maior consciencialização das pessoas para a forma como devem usar a bicicleta – no caso dos ciclistas – e lidar com as mesmas – no caso dos condutores de veículos a motor. Neste campo, o responsável acredita que já tem havido progressos, muito embora ainda proliferem erros sobretudo no que se refere ao cálculo da distância de segurança frontal e lateral. Isto porque “quem vai no automóvel não sente a mesma insegurança que o ciclista”. “Isto é algo gradual e a infraestrutura tem o poder de mudar porque despoleta outro tipo de mudanças. À medida que temos mais gente a andar na estrada porque é convidada pela infraestrutura, os condutores estão mais atentos, cedem a passagem, as escolas de condução ensinam de outra forma. O ponto de partida tem de ser as vias, o estacionamento… convidar a que venham de bicicleta. Só assim se combate o ódio na estrada, que ainda existe”, sustenta Mário. É precisamente devido à vulnerabilidade dos ciclistas e ao risco de perigo para terceiros que a associação entende que não faz sentido que estes sejam obrigados a pagar um seguro, tal como acontece nos veículos motorizados. “Eu tenho seguro no carro porque se atropelar alguém não vou ter como pagar operações, indemnizações, etc.. Se eu for de bicicleta e atropelar alguém, o risco dessa pessoa morrer ou de der de ser operada é muito baixinho. Existe esse risco, claro, mas também o existe ao andar a pé”, justifica Mário.

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