Opinião

O incrível sonho da invenção da cura

Sábado. 18 de abril. Tirei o dia. Despachei meia dúzia de e-mails, resolvi uns assuntos burocráticos de caráter pessoal, arrumei coisas em casa enquanto ouvia uns discos do Zeca, dançava pela casa e ensaiava um texto, fiz um mini SPA caseiro e dediquei-me a portar-me alimentarmente menos bem e a ver uma série. Cedi aos mais mundanos prazeres burgueses dos tempos que correm. Mea culpa, mea culpa. A dita série, Kalifat (da Netflix) foi só mais um ativador das minhas insónias e do meu mau dormir. Passa-se entre Estocolmo, na Suécia e Raqqa, a primeira cidade a ser tomada pelo Estado Islâmico durante a guerra civil da Síria. Entre expor-nos como decorreram (ou decorrem) os processos de recrutamento de cidadãos europeus para a causa dos rebeldes, os passos para a preparação de um ataque terrorista ou a forma como as mulheres são tratadas por estes ditos islâmicos, a série coloca a nu a intolerância que paira sobre o mundo e de como as religiões (não a fé) e as suas más e fanáticas interpretações a têm potenciado. É brutal e viciante. Aconselho todos a verem. 

Fui para a cama com a mente num turbilhão de coisas e percebi como este vírus, o COVID-19, que não escolhe extratos sociais, não privilegia crenças ou raças, se tornou numa oportunidade perdida para a nossa cura interior, para o nosso entendimento da importância da Liberdade e da democracia e só veio revelar, em muitos casos, o pior dos seres humanos. O pior. É triste ouvirmos notícias, no caso português, de como os habitantes de Ovar têm sido ostracizados por muitos pelo facto de terem estado 31 dias com um cordão sanitário. Ouvir que há empresas e particulares a recusarem produtos que vêm daquele município. Como é ainda mais triste esta campanha e este exacerbado racismo contra cidadãos chineses espalhados pelo mundo, parecendo que nos esquecemos da importância das migrações destes para as economias nacionais e locais. 

Já não chega esta perda de Liberdade de que estamos todos a ser alvo, primeiro com o vírus, depois com Estado de Emergência (necessário porque há um divórcio, litigioso e sem hipóteses de resolução, entre o Estado e os cidadãos, ou haveria confiança e todos saberiam qual o seu papel) e ainda há o julgamento público por parte dos vizinhos?

E depois esta sede de apontar o dedo quando todos querem aceder a dados e saber quem são os infetados porque, dizia alguém estes dias: “a pessoa pode ir ao mesmo supermercado que eu e eu quero ter o direito de poder afastar-me”. Como assim?! Também farão o mesmo a algum amigo ou familiar que se tenha contagiado? Porque as pessoas contagiadas estão (ou deviam estar, essas sim, absolutamente isoladas). Depois de curadas mantemos a distância? É pecado relacionarmo-nos com alguém que tenha sido contagiado? Ouve-se tudo por aí enquanto se ouve, repetidamente, um discurso da acusação, por um lado, e do medo, por outro. No meio de tudo isto tenho uma pergunta: aquelas pessoas que dizem: “Está toda a gente na rua, ninguém respeita o isolamento, o esforço de uns é o desrespeito de outros e blá blá blá”, estas pessoas não estão também na rua para poderem ver toda a gente que também lá está? Ou estão só à varanda com binóculos especiais? Ou, já sei, estão nas redes sociais só a mandar larachas porque não são capazes de estar consigo mesmas e têm que se meter na vida dos outros? Já não chega esta perda de Liberdade de que estamos todos a ser alvo, primeiro com o vírus, depois com Estado de Emergência (necessário porque há um divórcio, litigioso e sem hipóteses de resolução, entre o Estado e os cidadãos, ou haveria confiança e todos saberiam qual o seu papel) e ainda há o julgamento público por parte dos vizinhos? 

Esquecemo-nos, todos os dias, que em Portugal, ao contrário do que aconteceu na grande maioria dos países, a economia não parou na íntegra e ainda bem! Temos aplaudido (e bem) os profissionais de saúde e todos os outros que trabalham no abastecimento e comercialização de bens essenciais, mas estamos a esquecer-nos do esforço de adaptação feito por muitos para que a atividade industrial não pare, antes se adapte com planos de contingência para que o colapso económico e social não seja ainda maior. E não estou a falar das empresas que adaptaram os seus negócios e que agora produzem viseiras, máscaras sociais ou desinfetantes vários. Não. Estou a falar das outras todas. Provavelmente, os juízes do Facebook até as criticam e acham que devia parar tudo mas, provavelmente, esses juízes estão em casa, em suposto teletrabalho, ou com alguma outra alternativa que lhes permite estar confinados, confortavelmente, sem (quase) nenhuma perda de rendimento. 

A Escola teve que adaptar-se em tempo record, havendo muitos professores, de outra geração, que fizeram das tripas coração para instalar uma plataforma em casa e que estão numa luta contra as suas próprias limitações para que a Escola não pare. Mas só conseguimos focar-nos nas crianças que não têm computador ou acesso à internet. Sim, temos que encontrar soluções promotoras da igualdade de oportunidades. Mas já tínhamos antes. Somos viciados na crítica, no apontar o dedo e há muitos imensamente desiludidos por Portugal ser considerado exemplo no combate à propagação do COVID-19, muitos que desconfiam dos números e das estatísticas e que desejavam sangue, mortes em catadupa, o colapso do SNS, despedimentos em massa no Governo. Tudo.  

Este vírus, como dizia, só veio mostrar o pior de nós enquanto sociedade. Também eu tenho lançado alertas no que à Cultura diz respeito, revelando-me desiludida com as políticas, de uma forma geral. Mas já estava antes e não tem nada que ver com este Governo ou Ministra em particular. É um problema do país e é um setor para o qual em nenhum momento da nossa Democracia houve estratégia e que nunca foi valorizado. Mas começa por não ser valorizado pelos cidadãos que também consideram a atividade cultural e artística como secundária e perfeitamente dispensável em todo e qualquer momento de crise. Ou estarei enganada? Em todo o lado se ouve e se lê: “Andam a investir em teatros e em esculturas e não há saneamento e blá bla blá…”, Estou enganada? Mas, nos meus textos, acérrimos alguns, se os lerem com atenção, há sempre propostas, ideias, sugestões, muitas delas fundamentadas com práticas de outros países às quais estou muito atenda desde há vários anos. Porque, nesta altura, sentido crítico e opinativo sempre (como antes) são essenciais, mas é importante ser parceiro a encontrar soluções e não ser apenas do contra. 

[Continua na próxima edição…]

Helena Mendes Pereira
Curadora e escritora

 

 

       

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